Livro investiga e reconstrói as aventuras e os mistérios de Belchior no exílio - Cariri Ativo - A Notícia Com Credibilidade e Imparcialidade
Livro investiga e reconstrói as aventuras e os mistérios de Belchior no exílio

Livro investiga e reconstrói as aventuras e os mistérios de Belchior no exílio

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Foto: Sonora Editora/Divulgação
Era dia de comemorar seus 70 anos. Vinte e seis de outubro de 2016. Belchior ergueu um brinde e, antes que a conversa tomasse outro rumo, anunciou que tinha um disco praticamente pronto, melhor que “Alucinação”, essa maravilha lançada em 1976. Porém, seis meses depois daquele encontro entre vizinhos, o cearense morreu, e agora só o tempo – ou nem ele – poderá confirmar se o artista dizia a verdade ou fazia mais uma de suas piadas. Belchior vivia em Santa Cruz do Sul, no interior do Rio Grande do Sul, em uma casa de dois andares emprestada por um amigo, com piscina nos fundos, situada em uma rua pacata da cidade gaúcha.

Essa reunião é uma das passagens contadas no livro “Viver É Melhor que Sonhar: Os Últimos Caminhos de Belchior” (Sonora Editora), escrito pelos jornalistas Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti. A obra, que entra em pré-venda na próxima segunda-feira (18), percorre o tão falado autoexílio de Belchior, cuja duração, de 2007 a 2017, se transformou numa espécie de jornada tão intrigante quanto fascinante, despertando a curiosidade de fãs, da imprensa e do meio musical.

Chris já se interessava por essa fuga de Belchior quando, em 2013, leu uma matéria de Bortoloti, publicada na revista “Época”, exatamente sobre o paradeiro do músico e sua vida reclusa. Um tempo depois, os dois se conheceram no doutorado em literatura, e certo dia a jornalista mostrou ao então colega aquela reportagem guardada no celular havia dois anos. Tocar o projeto tornou-se inevitável. “Falei na lata: vamos fazer um livro”, ela lembra em entrevista ao Magazine. Só que o desejo de ambos era ir atrás de Belchior e celebrá-lo ainda vivo, mas ele acabou falecendo, em abril de 2017.

A morte do compositor gerou algumas reticências sobre a continuidade do projeto, porém, no fim daquele ano, Chris e Bortoloti colocaram o pé na estrada e começaram as viagens, concluídas em outras etapas no primeiro semestre de 2018.

Para dar contorno ao que chamam de “road book”, eles refizeram os caminhos pelos quais Belchior se perdeu e se encontrou, em cidades do Uruguai e do Rio Grande do Sul, e foram ao Ceará, terra natal do músico, e a São Paulo, de onde ele partiu em disparada rumo ao exílio, caindo na estrada feito um beatnik.

Ao reconstituir a década nômade de Belchior, os autores ouviram muita gente que conviveu com o artista naqueles tempos: vizinhos, fãs e pessoas que o acolheram e o ajudaram. A ex-mulher Angela Henman, com quem foi casado por 30 anos, e os filhos do casal, Camila e Mikael, deram depoimentos importantes.

O livro, que não pretende ser uma biografia, também mostra que Belchior acabou sendo enrolado pelas circunstâncias. “Se ele voltasse seria problemático”, destaca Chris Fuscaldo. Sem dinheiro, procurado pela polícia, com as contas bancárias bloqueadas por causa do não pagamento da pensão alimentícia a Angela, de quem se divorciou em 2007, o cearense, enrolado em dívidas, peregrinou, morou de favor, foi abrigado por camponeses.

Certa vez, teve que sair às pressas de um hotel em Artigas, no Uruguai, deixando tudo pra trás, porque não tinha grana para pagar a conta: passou a noite debaixo da Ponte Internacional da Concórdia, na divisa com o Brasil.

Aí aparece a figura de Edna Assunção de Araújo, ou Edna Prometheu, companheira de Belchior durante esses dez anos. Procurada pelos jornalistas, ela nunca quis falar. “Ela é uma personagem enigmática, tem a dor dela, foi acusada por muita gente de ser a culpada (pelo sumiço de Belchior), mas ela fez o que ele queria fazer”, comenta Chris.

Outsider

Afinal, o que teria levado Belchior a essa ruptura tão radical, que o fez deixar para trás a carreira, a família e os amigos? “Viver É Melhor que Sonhar” tenta responder a essa interrogação, ainda que não se prenda a ela ou a uma conclusão trivial. “Cada um sabe das suas decepções, dos traumas que carrega. Fizemos um livro tentando contemplar o máximo que a gente podia sobre essa questão, mas não existe uma resposta, talvez nem o próprio Belchior soubesse dar essa resposta exata”, pondera a autora.

E, tratando-se de Belchior, nada é simples. Para Marcelo Bortoloti, analisar a reclusão do músico também requer um olhar cuidadoso sobre elementos intelectuais e espirituais do compositor. Em boa medida, é possível encontrar relação do desligamento voluntário de Belchior nas letras que falam de fuga, nas referências culturais que ele absorve na juventude e na atitude de buscar o isolamento, presente na experiência franciscana no mosteiro dos frades capuchinhos, em Guaramiranga, na região serrana do Ceará.

De certa forma, Belchior se tornou o que cantou: era, de fato, um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes. “Ele era muito complexo, tinha várias camadas, e havia, sim, um desejo de se afastar, de sair de um ciclo. Talvez Belchior se cansou de ser Belchior”, pontua o autor.

Bortoloti diz que o exílio de Belchior deve ser compreendido sob aspectos de integridade, de busca de libertação e liberdade a qualquer preço, e também de crítica ao sistema capitalista, à obrigação de fazer sucesso e de ganhar dinheiro: “Ele seguiu nesse caminho de elevação, de ruptura. Ele tinha uma agenda com o número até do Lula, mas não pediu ajuda e dinheiro a ninguém. Ainda que com os percalços, ele foi até o fim”.

Pré-venda

A pré-venda de “Viver É Melhor que Sonhar: Os Últimos Caminhos de Belchior” começa na próxima segunda-feira (18). Quem optar pela compra antecipada poderá escolher algumas recompensas, como kits da obra com o LP de “Alucinação”, camisetas e uma book bag, bolsa estilizada para guardar o livro. O valor do livro, cujo lançamento deve acontecer entre fevereiro e março, e dos kits ainda será definido.

Fonte: O Tempo

miseria.com.br

14.01.2021