O treinador é investigado pela Polícia Civil do Ceará e segue em liberdade.
Escrito por Emanoela Campelo de Melo
As recentes denúncias de atletas de futsal contra um treinador fizeram com que uma vítima, hoje com 30 anos, se encorajasse a contar à Polícia o que passou junto ao mesmo suspeito, no ano de 2009. Nádia (nome fictício) diz ter sido assediada em 2009 e que ficou quase 15 anos calada.
Nos últimos dias, com a repercussão do caso na imprensa, ela disse que viu a chance de conseguir falar sobre: "é revoltante. Eu esperei muito esse dia chegar. Eu sabia que ele não tinha mexido só comigo. Foram anos vendo ele em alguns eventos e eu não conseguia me mexer. Para mim, dar esse passo de denunciar é uma vitória".
Nádia está entre as 12 vítimas que denunciaram o professor de futsal, no último mês. Ela conta que quando tinha 16 anos foi chamada pelo treinador até uma sala e lá obrigada a assistir vídeo pornô com ele.
VEJA RELATO:
"EU JOGAVA EM UM TIME FEMININO. MACHUQUEI MEU JOELHO E EM 2009 SURGIU A OPORTUNIDADE DE EU VOLTAR A JOGAR FAZENDO A CIRURGIA. ELE ERA O TÉCNICO NA ÉPOCA E EU FUI SABER SE DAVA CERTO. ELE PROMETEU QUE IA CONSEGUIR 50% DA MINHA CIRURGIA E FIQUEI TODA ANIMADA.
OS TREINOS SEMPRE ERAM NO DOMINGO. EM UM DESSES DIAS, JÁ ERA MEIO-DIA, ELE LEVOU AS MENINAS PARA UMA SALINHA. FIQUEI ESPERANDO QUE ELE ME CHAMASSE E EU FIQUEI ESPERANDO. VIA A FORMA COMO ELE TRATAVA AS MENINAS, SEMPRE ESCULHAMBAVA, FALAVA PALAVRÕES. MAS PARA MIM NAQUELA ÉPOCA AQUELE ERA O NORMAL DE UM TÉCNICO.
QUANDO ELE ME CHAMOU EU FUI SEM MEDO NENHUM, NEM IMAGINAVA O QUE IA ACONTECER. ELE ME COLOCOU EM UMA CADEIRA PERTO DA DELE E COMEÇOU A MOSTRAR UNS VÍDEOS PORNÔS NO COMPUTADOR. ELE PEGOU MINHA MÃO E COLOCOU NA COXA DELE. EU NÃO TIVE MUITA REAÇÃO, NÃO LEMBRO NEM O QUE ELE FALOU. FIQUEI PARALISADA, NÃO CONSEGUIA ME MEXER E EU SÓ QUERIA SAIR DALI. ATÉ QUE EU CONSEGUI SAIR E NUNCA MAIS VOLTEI"
"DECIDI EXPOR ELE"
Nádia diz que só conseguiu falar sobre o caso aos pais há três anos. Com o passar dos anos, via o treinador em eventos e observava que ele tinha a mesma forma de agir: "sempre trabalhando com meninas menores de idade. Eu via aquilo e isso tudo me deixava muito mal".
No último mês de fevereiro, ela leu os primeiros relatos contra o suspeito e se encorajou a ir até à Polícia falar sobre.
"Quando eu vi a postagem de uma menina pensei: foi ele, o mesmo que mexeu comigo. Então decidi também fazer o meu relato, decidi expor ele. É mais revoltante ainda agora saber que ele está andando por aí, não foi feito nada. A gente tenta expor ao máximo essa situação. Tem mais meninas que não conseguiram denunciar ainda, que estão muito abaladas. É muito triste".
A expectativa da denunciante é que com a visibilidade do caso, mais meninas se encorajem a relatar os assédios sofridos: "eu sei que não é fácil, eu me sentia só. Quando vi que não era a única, criei forças".
INVESTIGAÇÃO
A Polícia Civil do Estado do Ceará passou a investigar o caso após relatos de adolescentes que teriam sido vítimas do professor no bairro Centro, em Fortaleza. As adolescentes falam que passaram por crimes sexuais e agora esperam ver o suspeito preso.

As vítimas mais recentes têm de 13 a 17 anos de idade e supostamente eram ameaçadas de serem retiradas do time, caso contassem para as demais atletas, amigos ou familiares o que acontecia nos bastidores do treino.
As investigações seguem em andamento por meio da Delegacia de Combate à Exploração da Criança e do Adolescente (Dececa), "unidade da Polícia Civil que realiza diligências e oitivas para elucidar o caso. Outras informações serão repassadas em momento oportuno para não comprometer os trabalhos policiais", segundo as autoridades.
diariodonordeste.verdesmares.com.br
17.03.2023


