Águas mais aquecidas ou mais frias afetam o regime de chuvas.
Com a tendência atual de neutralidade ou aquecimento no Pacífico Equatorial após o pico do fenômeno La Niña – resfriamento daquele oceano que tende a favorecer chuvas no Nordeste brasileiro –, a variabilidade das águas atlânticas assume o papel de protagonismo na previsão climática.
Eduardo Sávio Martins, presidente da Funceme, aponta que a dinâmica do Atlântico é muito rápida e exige um monitoramento constante, com rodadas de modelos a cada 15 dias para acompanhar as mudanças.
“A dinâmica do Atlântico é que temos que continuar monitorando de forma mais próxima porque é ela que vai definir a qualidade da estação”, reforçou o gestor na coletiva de imprensa da divulgação do prognóstico, no último dia 21 de janeiro.
Por que o Atlântico importa?
A posição da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), principal sistema indutor de chuvas no Estado durante a quadra (meses de fevereiro a maio), depende diretamente de onde o Atlântico está mais aquecido.
O “combustível” para a formação de nuvens sobre o continente é maior quando o aquecimento das águas acontece do Equador para o Sul.
Se o aquecimento se concentrar na parte Norte, a umidade acaba ficando retida por lá e chove sobre o próprio oceano. Assim, o ideal é que o aquecimento “desça” o suficiente para cobrir o Nordeste.
O problema é que o Atlântico é quase cinco vezes menor do que o Pacífico, ou seja, tende a mudar com muito mais velocidade. “O Pacífico tem uma inércia maior. Mudar a temperatura de uma grande panela leva mais tempo”, ilustra Martins.
Assim, por estar mais próximo à costa do Nordeste brasileiro, o Atlântico tem influência maior e mais direta sobre a qualidade da quadra chuvosa do Ceará.

Oceano provocou mudanças na Funceme
A maior variabilidade do Atlântico motivou a Funceme a alterar seu modelo de previsão, em meados de 2012. Um técnico dos Estados Unidos ajudou a capacitar os profissionais locais e a implementar um novo sistema de previsão, que é utilizado até hoje.
“A questão de rodar um modelo global para cá, para mim, era muito importante para termos cenários, porque o Atlântico é muito dinâmico”, lembra Eduardo.
Ter mais elementos para elaborar os prognósticos ajuda o órgão a definir como comunicar a previsão. “Se é muito incerto, a gente segura um pouco mais (a divulgação) porque a sinalização está mostrando que a gente precisa ter mais cautela, para não gerar problemas de decisão. Mas não é um trabalho fácil”, diz.
Parcerias com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe) buscam deixar mais objetiva a análise do resultado da previsão.
Porém, sustenta Martins, o Atlântico é onde reside a maior incerteza atual, tornando as próximas previsões um desafio constante. “Vamos depender esse ano mais ainda do Atlântico do que em anos anteriores”, conclui.
O que é o Dipolo do Atlântico?
Segundo a Funceme, o Dipolo do Atlântico se refere à diferença entre as anomalias de temperaturas da superfície do oceano Atlântico tropical norte e sul, que pode favorecer ou não a atuação da ZCIT.
Ocorre um Dipolo favorável à atuação da Zona quando o campo de anomalias de temperaturas da superfície do mar se mostra mais aquecido ao sul do equador e menos aquecido ao norte.
A situação inversa caracteriza o Dipolo desfavorável, que tende a manter a ZCIT afastada do norte do Nordeste, tornando escassas as precipitações na região.
Neste janeiro de 2026, o prognóstico da Funceme afirma que a temperatura do Atlântico tropical está em torno da normal tanto na porção norte como na porção sul, “de modo que a análise do dipolo do Atlântico indica condições próximas à neutralidade”.
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28.01.2026


