Dado reúne casos de homicídio doloso, feminicídio, lesão corporal seguida de morte e latrocínio. Dois municípios merecem destaque entre os que tiveram redução: Maracanaú e Maranguape.
Autor Kleber Carvalho
O Ceará obteve seu primeiro mês com menos de 200 Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) em pouco mais de seis anos. Até esse sábado, 31, janeiro deste ano acumulou 191 CVLIs, o menor número desde outubro de 2019, quando o Estado apontou 176 mortes violentas.
Ainda altos, os números obtidos com exclusividade pelo O POVO representam queda no índice de homicídios em Fortaleza, Região Metropolitana (RMF). Com 42 CVLIS, a Capital teve seu mês com menos mortes violentas em toda a série histórica. Na RMF foram 36 crimes do tipo, melhor resultado em 14 anos.
O titular da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), Roberto Sá, destaca que as quedas ocorreram em regiões que vinham apresentando altos índices de mortes violentas, como Fortaleza e RMF, e por isso, passaram a receber uma maior atenção do Estado.
"Demos alguma prioridade, sem abandonar nenhum outro indicador de criminalidade, direcionamos alguns recursos extraordinários para áreas que estavam tendo mais conflito. Essa letalidade elevada do Ceará, e mostramos isso em janeiro, é muito do conflito entre as facções. E quando a polícia aperta, estabelece uma estratégia, ela vai relativizando e diminuindo", afirma o secretário.
No interior, os cenários são distintos, onde a região Norte interrompeu a tendência de queda que vinha sendo observada desde agosto do ano passado, com janeiro apresentando 56 CVLIs, três a mais que dezembro de 2025.
O índice, entretanto, é o menor desde 2020, se considerados apenas os meses de janeiro. À época foram registradas 39 mortes violentas ao longo do mês nas regiões que compõem o Interior Norte, como Ibiapaba, Maciço de Baturité, norte do Sertão Central e Inhamuns e o Litoral Norte.
Nas cidades mais ao sul, como as do Vale do Jaguaribe, sul do Sertão Central e Inhamuns e o Cariri, o número de mortes teve leve redução, caindo de 58 para 57 entre dezembro e janeiro.
Na série histórica do mês para essa porção do Estado houve aumento de 7,5% nos CVLIs, com 4 homicídios a mais em comparação com janeiro de 2025.
Número de CVLIs por ano no Ceará
Números de CVLIs caem em regiões com menor conflito entre facções
As regiões com maior queda nos Crimes Violentos Letais Intencionais no Ceará também são as que tiveram redução no número de conflitos entre grupos criminosos.
Especialistas apontam que a maioria das mortes são motivadas pelas disputas territoriais entre esses grupos, e uma vez que essas brigas findam, a quantidade de homicídios também tende a cair.
O especialista em segurança pública e colunista do O POVO, Ricardo Moura, aponta que os números podem ser explicados por uma nova dinâmica do crime organizado, onde não se justifica a manutenção dos assassinatos.
Aliada a isso está o trabalho das forças de segurança, no combate diário às ações violentas dos grupos entre si e contra membros das comunidades cearenses.
"Não é de interesse para os grupos criminosos manterem uma relação de confronto permanente. A ideia é que os conflitos ocorram somente quando haja alguma espécie de disputa. Quando a gente assiste um cenário de hegemonia de um grupo sobre outro a tendência é que os confrontos diminuam e as mortes em decorrência disso também. Mas a gente também não pode deixar de lado o trabalho de inteligência, as operações que vêm sendo realizadas e a grande quantidade de prisões", explica o doutor em Sociologia.
Dois municípios merecem destaque entre os que tiveram redução de CVLIs. Maracanaú e Maranguape, ambos na RMF, tiveram quedas de respectivamente, 92,3% e 87,5% no número de mortes violentas, se comparados os meses de janeiro de 2025 e 2026.
Em Maracanaú, o índice caiu de 13 para uma morte, enquanto em Maranguape, a redução foi de oito para uma. Ambas estavam entre as 10 mais violentas do Brasil no levantamento feito pelo Anuário Brasileiro da Segurança Pública de 2025.
Quem também figurou entre as cidades com maior média de mortes violentas no país foi Caucaia, outro município da Região Metropolitana.
Este, por sua vez, ainda apresenta grande disputa entre as facções Comando Vermelho e Massa Carcerária, fato que manteve a frequência de CVLIs, com 17 casos em janeiro deste ano, um a mais que o mesmo período de 2025.
Questionado sobre a influência dos conflitos nos crescimentos e reduções de CVLIs no Estado, Roberto Sá disse ser inegável que essas disputas interferem diretamente no cotidiano de mortes. Entretanto, o secretário reforçou que os números são, em grande parte, resultado do trabalho policial.
"Eu atribuo muito mais o resultado a ação de servidores públicos, ao direcionamento do governo, homens e mulheres que efetuaram mais de 5 mil prisões só de assassinos e membros de organizações criminosas, do que à dinâmica do crime. No entanto, a gente não desconsidera que quando o conflito é reduzido há uma tendência de redução da letalidade", pontua.
Aumento de pessoal e reorganização nas investigações: o que o Estado tem feito para frear o avanço das facções
Frente às investidas dos grupos criminosos para domínio de territórios e de serviços prestados na sociedade, como turismo, internet, transporte de passageiros e venda de combustíveis, o Governo do Estado pontua ter reorganizado a atuação das forças de segurança, bem como reforçado o efetivo.
Um dos destaques é o incremento no efetivo da inteligência, área que possuía 175 membros e agora conta com 791 policiais. Houve também a duplicação dos comandos intermediários, que saíram de quatro para oito, a fim de diminuir a área de atuação dos policiais e concentrar esforços.
Na forma de agir contra as facções, a principal mudança foi a inclusão da Polícia Militar do Ceará (PMCE) nas diligências de cumprimentos de mandados de prisões, que antes eram realizadas apenas pela Polícia Civil do Estado (PC-CE).
Batizada de "Procumpri", a medida funcionou em caráter experimental durante o último ano, sendo oficialmente lançada no mês de dezembro. De acordo com Sá, a inclusão da PMCE resultou em um salto de 6 mil para 43 mil no número de diligências, com mais de 2 mil prisões.
"Foram 37.000 diligências a mais na casa de criminoso com mandado de prisão batendo na porta dele e, ou capturando ou dizendo para família, 'nós iremos voltar'. Essa é uma estratégia mesmo de desestabilizar o criminoso e tirá-lo da zona de conforto, de dizer 'aqui no Estado você não vai fazer graça, não vai se criar' e se cometer crime, vai ser preso", enfatiza o secretário.
Outro ponto destacado pela SSPDS é o número de prisões ao longo de 2025. Entre janeiro e dezembro foram capturados 2.883 executores ou mandantes de assassinatos. Junto a isso, foram efetuadas 2.541 prisões de membros de organização criminosa, 96% a mais que em 2024, em um somatório que se aproxima das 5.550 prisões no decorrer de todo o ano.
Há destaque também para as apreensões de arma de fogo, com 7.221 dispositivos sendo tirados de circulação, maior índice da série histórica (2015 a 2025). A região com o maior número de apreensões foi o Interior Norte, com 2.086.
Entre as medidas mais recentes está a inauguração de quatro delegacias do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), duas em Caucaia, uma em Maracanaú e outra em Maranguape. As unidades serão responsáveis por investigar as mortes violentas nas cidades da RMF e prender os envolvidos nelas.
Para o secretário, a previsão é de que essas e outras decisões que vêm sendo tomadas avancem o Estado na repressão do crime organizado e causem mudança perceptível no cenário de violência das comunidades.
"Se não houver fator superveniente diferente da realidade posta, acredito e tenho expectativa que isso se mantenha. Hora um pouco subindo aqui, descendo ali. O criminoso muda de local e de modalidade, ele quer continuar no mundo do crime. É possível que a criminalidade sofra mudança no seu perfil de atuação e nossa inteligência tem que estar atenta para nos alertar e tentarmos nos antecipar", conclui Sá.
Em contraponto, Moura afirma que a tranquilidade nos próximos meses depende de uma coexistência entre as ações de segurança e a dinâmica do crime organizado.
Segundo o pesquisador, as medidas governamentais têm um impacto menos imediato do que os acordos para não matança e tréguas territoriais vindos de outros estados.
"Não estou desconsiderando as ações tomadas pela Secretaria, acho que são todas importantes, mas elas têm um efeito que não é necessariamente imediato como uma determinação que vem de outro estado dizendo que não se pode mais matar ou entrar em conflito com outros grupos rivais. Se essa tendência vai permanecer nos próximos seis meses se deverá muito mais a uma dinâmica do crime do que realmente uma ação da Secretaria. Saber que ambas combinadas podem se traduzir nesse resultado", pontua o sociólogo.
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02.02.2026


