Autor Caynã Marques
Tornou-se comum, no novo cenário do mercado trabalho, no qual ganham força mais ocupações autônomas, que diversas atividades estejam passando por uma escassez de mão de obra e é do que se queixam setores produtivos no Ceará.
A demanda contrasta com os números do mercado de trabalho no Estado. A última pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em que os postos formais e informais são tratados, atesta que o Ceará atingiu taxa de desemprego de 5% no quarto trimestre de 2025.
O percentual representa o menor índice desde 2014, quando teve início a série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua Trimestral. Mas o pleno emprego aponta também para escolhas crescentes de fugir de ter chefes.
Para Alexsandre Lira, especialista em mercado de trabalho do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), o fenômeno envolve um descompasso estrutural entre oferta e demanda. “A oferta de mão de obra é feita pelo trabalhador, enquanto a demanda parte das empresas. Esse descompasso é comum, especialmente em setores que exigem maior qualificação”, explica.
Com isso, a informalidade ganha espaço. Das 27 Unidades da Federação analisadas pelo IBGE, o Ceará teve o sétimo maior percentual brasileiro de pessoas ocupadas por conta própria.
Além disso, se observada a taxa de informalidade de toda a população ocupada, o mercado de trabalho cearense figurou em quinto lugar do País, com 50,4%. Enquanto isso, as empresas reclamam de falta de pessoal.
Para se ter ideia, o último levantamento Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) apontou que 57% das principais ocupações do comércio apresentaram indícios de falta de trabalhadores em julho de 2025 — a maior incidência desde 2020.
Mas o que os números da CNC reforçam é um cenário já observado em nível nacional, cuja dificuldade de contratação atinge o maior patamar dos últimos cinco anos e se espalha por diferentes segmentos da economia.
Escassez de mão de obra se espalha entre setores do Ceará
Um dos setores em que a busca por trabalhadores se tornou mais evidente é o da panificação. Segundo Alex Martins, presidente do Sindicato das Indústrias de Panificação e Confeitaria no Ceará (Sindipan-CE), a dificuldade é generalizada. “Em todos os setores há a mesma dificuldade de mão de obra”, afirma.
De acordo com o representante, mudanças no comportamento das novas gerações ajudam a explicar o cenário. “Os jovens passaram a escolher onde trabalhar com base em fatores como horários, benefícios e localização, além de muitos não se interessarem por profissões tradicionais, como padeiro e confeiteiro”, pontua.
Ele também destaca que há desafios específicos na expansão do setor. “O problema aparece principalmente na abertura de novas padarias ou na ampliação do horário de funcionamento, quando a demanda por profissionais aumenta”, explica.
Apesar disso, Martins ressalta que a necessidade de trabalhadores segue elevada. “Hoje, o setor necessita de cerca de 5 mil profissionais para suprir a demanda de contratações”, conclui.
Construção civil se readapta ao novo mercado
O setor da construção civil também vem sendo impactado pela carência de mão de obra. O presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Ceará (Sinduscon-CE), Patriolino Dias, ressalta que “filho de pedreiro não quer ser pedreiro”, mesmo diante da alta demanda.
“Mesmo com uma remuneração elevada no setor (em média de R$ 8 mil, segundo ele), profissionais que antes atuavam na construção civil têm migrado para outras áreas”, destaca.
Já o engenheiro civil Joaquim Caracas afirma que o setor precisa focar mais em processos. “Em Fortaleza, a busca por um novo perfil de trabalhador passa por uma readaptação. Tudo depende de processos, e esse cenário está cada vez mais voltado à proatividade”, explica.
Segundo Caracas, a expansão do segmento pode ser comparada a uma “estrutura de Lego”, na qual cada componente influencia diretamente o funcionamento do todo.
Para Lira, esse movimento também está ligado a mudanças mais amplas no mercado de trabalho. “Muitas pessoas optam por ser o próprio patrão, em um fenômeno que a gente chama de ‘uberização’, o que amplia a migração para ocupações informais”, analisa.
Bares e restaurantes enfrentam limite para crescer
O cenário de escassez de mão de obra não se restringe à panificação e construção. No segmento de bares e restaurantes, a falta de pessoal já afeta mais de 60% dos estabelecimentos no País, segundo levantamento da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel).
Mesmo com saldo positivo de vagas formais em períodos recentes, o alto volume de desligamentos evidencia uma forte rotatividade, dificultando a formação de equipes estáveis, conforme o segmento.
A situação impacta diretamente o crescimento do setor. “O empresário tem demanda, mas não consegue ampliar horário, abrir nova unidade ou investir em franquia porque não tem equipe estruturada para sustentar a operação”, afirma Marcelo Marani, especialista em gestão estratégica e fundador da Donos de Restaurantes.
Além de limitar a expansão, a falta de trabalhadores também pressiona custos e afeta a gestão dos negócios. “Quando falta gente, o dono volta para o operacional e deixa de fazer gestão estratégica. Ele para de analisar indicadores e passa a atuar só para apagar incêndio”, explica o especialista.
No Ceará, a Abrasel-CE traz que o segmento de alimentação fora do lar tem apresentado desempenho acima da média nacional em faturamento, mas enfrenta o mesmo entrave estrutural, a dificuldade de contratação e retenção de profissionais, o que pode comprometer o ritmo de crescimento nos próximos anos.
Fatores por trás da redução da mão de obra
O representante do Sindipan também lista fatores que ajudam a explicar o fenômeno:
- As novas gerações priorizam condições de trabalho, como horários, benefícios e localização;
- Programas de transferência de renda e outras fontes de sustento influenciam a decisão de ingresso no mercado formal;
- Profissões tradicionais perderam atratividade diante do surgimento de novas ocupações;
- Parte dos jovens busca alternativas de renda no ambiente digital, como produção de conteúdo.
Entre os fatores que ajudam a explicar o cenário, Lira destaca o impacto dos programas de transferência de renda.
“Quando a pessoa já tem uma renda mínima garantida, ela passa a exigir uma remuneração maior para entrar no mercado formal. Isso eleva o chamado ‘salário de reserva’”, explica.
Ele também aponta que a decisão pelo trabalho informal envolve aspectos de autonomia e renda. “A informalidade oferece flexibilidade de horário e, em alguns casos, possibilidade de renda maior, o que influencia a decisão de muitos trabalhadores”, afirma.
Diante desse cenário, o especialista avalia que as empresas precisam se adaptar. “Os médios e grandes empresários precisam rever a política salarial e criar incentivos para atrair e reter trabalhadores. Sem isso, fica difícil competir com outras alternativas de renda”, pontua.
O conjunto desses fatores ajuda a explicar o descompasso entre a queda no desemprego e a crescente dificuldade das empresas em preencher vagas, consolidando um novo desafio estrutural no mercado de trabalho.
Cenário deve se manter até o fim do ano
Para Antonio Ricciardi, economista do Daycoval, apesar de ataxa de desemprego apresentada na sexta-feira da semana passada, 27 de março, vir com o comportamento conforme esperado, com uma alta, passando de 5,6% para 5,8%, o movimento é natural para o início de ano, dado o fim de empregos temporários que finalizaramaté dezembro de 2025.
"Então, a alta era esperada. A taxa com ajuste sazonal saiu de 5,4 para 5,5. Isso é mais relevante porque tira os efeitos de empregos temporários neste período."
Todavia, nos estudos da Daycoval, Ricciardi destaca que oito dos dez setores da atividade econômica permanecem com escassez de mão de obra.
"O que leva os rendimentos continuarem pressionados e a massa salarial permanecer em alta, o que é um problema para a condição da política monetária do Banco Central."
E o fluxo para o fim do ano não deve ser diferente. Ele prevê uma taxa de desemprego terminal em 5,6% em 2026, com desaceleração gradual do mercado de trabalho, porém, ainda mantendo em patamares aquecidos.
opovo.com.br
caririativo.blogspot.com
31.03.2026


