Uma a cada cinco crianças e adolescentes no Brasil sofreu violência sexual facilitada pela tecnologia em um ano, revela estudo - Cariri Ativo - A Notícia Com Credibilidade e Imparcialidade
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Uma a cada cinco crianças e adolescentes no Brasil sofreu violência sexual facilitada pela tecnologia em um ano, revela estudo

Uma a cada cinco crianças e adolescentes no Brasil sofreu violência sexual facilitada pela tecnologia em um ano, revela estudo

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Dados do Anuário apontam alta incidência de violência sexual contra crianças e reforçam urgência de proteção legal mais rigorosa (Foto Arquivo FolhaBV Nilzete Franco)

Pesquisa do UNICEF Innocenti, ECPAT Internacional e Interpol, financiada pela Safe Online, mostra como redes sociais, jogos online, plataformas de mensagem e outras ferramentas digitais podem contribuir para o abuso e a exploração sexual infantil online e presencial.

No Brasil, em apenas um ano, uma a cada cinco crianças e adolescentes de 12 a 17 anos (19%) foi vítima de exploração e/ou abuso sexual facilitados pela tecnologia. Isso representa cerca de 3 milhões de meninas e meninos vítimas de violência sexual online. O dado integra o relatório Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia, lançado nesta quarta-feira (4) pelo UNICEF Innocenti em parceria com a ECPAT International e a INTERPOL, com financiamento da Safe Online.

Abuso e exploração sexual “facilitados” pela tecnologia são situações em que tecnologias digitais são usadas em algum momento durante o abuso ou exploração sexual de uma criança ou adolescente, seja para aliciar, extorquir, produzir, armazenar ou disseminar material de abuso. Podem ocorrer totalmente no ambiente virtual, combinar interações online e presenciais ou acontecer de forma física, com a tecnologia sendo usada para registrar e compartilhar as imagens.


A publicação reúne evidências sobre como essas violências são facilitadas por ferramentas digitais, como redes sociais, jogos online, plataformas de mensagem e outras, apontando riscos, padrões e desafios para a prevenção e o enfrentamento do abuso e exploração sexual contra crianças e adolescentes.


Entre as situações mais recorrentes identificadas, a exposição a conteúdo sexual não solicitado aparece como a forma mais comum de violência, atingindo 14% das crianças e adolescentes entrevistados. Em quase metade dos casos (49%), a exploração e/ou o abuso foram cometidos por alguém conhecido da vítima. E muitas crianças e adolescentes não tiveram coragem de pedir ajuda – 34% não contaram o ocorrido para ninguém.


Joaquin Gonzalez-Aleman, Representante do UNICEF no Brasil, explica que o risco está presente tanto nas interações online quanto nas relações do cotidiano e evidencia a complexidade desse tipo de violência, que muitas vezes envolve vínculos de confiança, dependência emocional ou proximidade com o agressor. “Compreender essas dinâmicas é essencial para fortalecer políticas públicas, aprimorar mecanismos de proteção e promover respostas coordenadas entre governos, Sistema de Justiça, setor privado, plataformas digitais e sociedade civil. O objetivo é garantir que crianças e adolescentes possam exercer seus direitos no ambiente online de forma segura, protegida e livre de violências”, defende ele.


Para Mark Beavan, Chefe da Unidade de Crimes contra Crianças da INTERPOL, a pesquisa impulsiona uma resposta nacional mais forte e coordenada à exploração e ao abuso sexual infantil facilitados pela tecnologia. “As conclusões, baseadas em evidências, estão fornecendo às forças de segurança recomendações práticas e apoio direcionado. Esses esforços contribuem para a implementação, pelo Brasil, das resoluções globais da INTERPOL sobre crimes contra crianças, reforçando o compromisso do país com a proteção de crianças na era digital”, conclui.


Onde, como e quem comete a violência

Em 66% dos relatos coletados pela pesquisa, a violência ocorreu por canais online, como redes sociais ou aplicativos de mensagens instantâneas (64%) e jogos online (12%). Entre as crianças e adolescentes abordados nesses espaços, Instagram (59%) e WhatsApp (51%) aparecem com destaque como os aplicativos mais utilizados pelos agressores.


Em quase metade dos casos (49%), a exploração e/ou o abuso foi cometido por alguém conhecido da vítima. Em 26% das situações, o agressor era uma pessoa desconhecida, e outros 25% não conseguiram ou não quiseram identificar quem cometeu o crime — esse cenário mostra as barreiras para a denúncia, especialmente quando o abuso envolve alguém do convívio da criança ou do adolescente.


Entre as situações em que a vítima conhecia o agressor, na maioria das vezes (52%) o primeiro contato ocorreu no ambiente online. Houve também primeiros contatos na escola (27%), na própria casa da criança (11%) ou em espaços onde a vítima praticava esportes (2%), explicando a sobreposição entre as dinâmicas digitais e presenciais.


“A pesquisa Disrupting Harm in Brazil revela que as tecnologias digitais não estão necessariamente criando formas totalmente novas de violência. Em vez disso, elas muitas vezes facilitam e ampliam formas já existentes de exploração e abuso. O relatório pede uma ação coordenada entre governo, setor privado, escolas, famílias e comunidades para que todas as crianças no Brasil possam crescer livres da violência, tanto online quanto presencialmente”, explica Marium Saeed, Especialista em Pesquisa do escritório de Estratégia e Evidência do UNICEF Innocenti.


O uso de IA no cometimento de crimes

Outro ponto de alerta é o uso de material de abuso sexual contra crianças gerado por ferramentas de inteligência artificial generativa. Em apenas um ano, 3% das crianças e adolescentes entrevistados relataram que alguém utilizou IA para criar imagens ou vídeos de conteúdo sexual com sua aparência. O cenário reforça as conclusões do estudo Abuso de deepfake é abuso, lançado recentemente pelo UNICEF, que destaca que a criação e a disseminação de conteúdos manipulados também configuram violência sexual e podem causar impactos profundos na vida das vítimas.


“O Brasil construiu uma base legal sólida para proteger e cuidar de crianças submetidas à exploração e ao abuso sexual facilitados pela tecnologia. O que a pesquisa revela são lacunas na forma como a lei é implementada. Esperamos que essas evidências criem uma oportunidade para reduzir essa distância, para que cada criança receba a resposta coordenada, centrada na criança, e a justiça que a lei sempre pretendeu”, diz Andrea Varrella, Chefe do Programa Justiça e Direitos da Criança, da ECPAT International.


Escolaridade e classe social

Ao longo da pesquisa, não houve diferença estatisticamente significativa nas proporções de crianças e adolescentes submetidos à exploração sexual facilitada pela tecnologia por área de residência (urbana vs. rural), escolaridade (na escola vs. fora da escola) ou escolaridade dos pais (baixa/média/alta).


No entanto, o estudo mostra que há casos em que perpetradores buscam explorar crianças e famílias que enfrentam dificuldades econômicas. Em um período de apenas um ano, 5% das crianças relataram ter recebido ofertas de dinheiro ou presentes em troca do compartilhamento de imagens ou vídeos de conteúdo sexual, e 3% disseram ter recebido propostas semelhantes para encontros presenciais com finalidade sexual.

Denúncia, silêncio e impactos na vida das vítimas

Crianças e adolescentes submetidos a violências facilitadas pela tecnologia enfrentam impactos profundos em sua saúde mental, física e emocional, bem como em sua trajetória educacional, além de viverem com medo constante de que a violência seja descoberta, divulgada ou volte a acontecer. Em mais de um terço dos casos (34%), as vítimas não contaram a ninguém sobre a situação vivenciada.


Quando a revelação ocorre, ela tende a acontecer primeiro no círculo mais próximo. Em quase um quarto dos casos (22%), as vítimas compartilharam o ocorrido com amigos. Entre os principais motivos para o silêncio está a falta de informação sobre onde buscar ajuda ou para quem contar, apontada por 22% das crianças e adolescentes.


O constrangimento aparece como a segunda razão mais frequente (21%) para ficar em silêncio, somado a sentimentos de vergonha, medo de não serem acreditadas (16%), de que outras pessoas descubram o ocorrido (7%) ou à percepção de culpa teriam feito algo errado (3%). Em 12% dos casos, as vítimas afirmaram não considerar a violência “grave o suficiente” para ser denunciada.


As barreiras também se estendem ao registro formal das denúncias. Não saber como denunciar (18%), ser ameaçado pelo/a agressor/a (17%) e desconhecer que essas situações configuram crime e podem ser reportadas (15%) estão entre os principais obstáculos.


A pesquisa mostra que crianças e adolescentes vítimas de exploração e abuso sexual facilitados pela tecnologia enfrentam prejuízos significativos na saúde mental e na educação. Muitas vivem com medo e angústia de que a violência seja descoberta ou volte a acontecer, especialmente quando há exposição a conteúdo sexual indesejado, o que gera sensação de violação e perda de controle.


São frequentes relatos de ansiedade constante, hipervigilância, retração social e forte autoculpa, sobretudo nos casos em que houve compartilhamento prévio de conteúdo por parte da vítima. Dados da pesquisa indicam que essas vítimas apresentam taxas mais altas de ansiedade e têm mais de cinco vezes mais chances de se automutilar e de manifestar pensamentos ou tentativas suicidas, o que afeta tanto meninas quanto meninos.


“A pesquisa Disrupting Harm in Brazil oferece ao país evidências claras sobre como as crianças vivenciam os danos online, particularmente a exploração e o abuso sexual infantil facilitados pela tecnologia, e um roteiro prático para fortalecer a resposta nacional. O investimento de US$ 15 milhões do Safe Online em 25 países, incluindo Brasil, foi concebido para este momento: transformar pesquisa em ações direcionadas e fundamentadas em evidências. Aplaudimos o Governo do Brasil e aos parceiros deste estudo e especialistas locais por tornarem isso possível”, afirma Marija Manojlovic, Diretora Executiva da Safe Online.


Recomendações

Prevenir e responder à exploração e ao abuso sexual infantil facilitados pela tecnologia é um dever compartilhado entre governos, Sistema de Justiça, escolas, famílias, setor privado e plataformas digitais. Proteger meninas e meninos exige ações coordenadas, fortalecimento do Sistema de Garantia de Direitos e criação de ambientes seguros, inclusivos e centrados na criança. Com base nos achados do estudo, destacam-se as seguintes recomendações:

Governo e Sistema de Justiça

  • Fortalecer e investir mais no Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente
  • Padronizar protocolos de atendimento centrados na criança e no adolescente em todo o país
  • Atualizar as leis de proteção à infância e adolescência diante dos desafios das tecnologias emergentes
  • Enfrentar vulnerabilidades que aumentam o risco de abuso e exploração sexual

Famílias e Cuidadores

  • Oferecer informação, orientação e serviços especializados de apoio
  • Promover ambientes familiares baseados no diálogo, na confiança e na escuta ativa
  • Fortalecer a educação sobre consentimento, autonomia corporal e relacionamentos saudáveis

Escolas e Profissionais do Sistema de Garantia de Direitos

  • Integrar a educação sobre consentimento e proteção digital no ambiente escolar
  • Capacitar profissionais para prevenir, identificar e responder a casos de abuso e exploração sexual

Setor de Tecnologia e Plataformas Digitais

  • Fortalecer a cooperação entre empresas de tecnologia para prevenção e resposta à violência
  • Implementar salvaguardas eficazes nas plataformas digitais

Sociedade em Geral

  • Ampliar a divulgação de canais de denúncia acessíveis, seguros e acolhedores
  • Promover uma cultura de proteção e responsabilidade coletiva

O trabalho do UNICEF na proteção de crianças e adolescentes

O UNICEF no Brasil atua na proteção de crianças e adolescentes contra todas as formas de violência (física, sexual, psicológica, letal e online), com foco em populações vulneráveis.

Nesse sentido, o UNICEF trabalha para:

  • Dar visibilidade à violência, por meio da produção de evidências, disseminação de conteúdo e incidência política.
  • Promover apoio técnico especializado em nível nacional e local para protocolos e fluxos adequados de atenção aos casos de violência.
  • Fortalecer os diferentes serviços públicos, com destaque para Conselhos Tutelares e escolas, para atuação na prevenção e resposta.

Metodologia

A pesquisa contou com 1.029 entrevistas com crianças e adolescentes de 12 a 17 anos, e 1.029 com pais e responsáveis, realizadas em visitas domiciliares, entre novembro de 2024 e março de 2025. As perguntas consideraram as experiências vividas nos 12 meses anteriores à participação na pesquisa. O estudo incluiu também entrevistas com adolescentes e jovens (16-24 anos) submetidos à exploração e ao abuso sexual facilitados por tecnologia quando tinham menos de 18 anos, profissionais do Sistema de Justiça e Segurança Pública e trabalhadores da linha de frente, além de uma análise da legislação e das políticas e marcos públicos nacionais. A pesquisa seguiu um desenho amostral agrupado de probabilidade aleatória de três estágios. No Brasil, a cobertura do trabalho de campo foi de 95%.

Relatos coletados durante a pesquisa

São reproduzidos, abaixo, trechos das entrevistas realizadas ao longo da pesquisa. Os nomes e local de moradia das crianças, adolescentes e profissionais citados foram suprimidos para preservar o anonimato e evitar a revitimização.


“Ele também já tinha enviado diversas fotos. Minha p*, minha gostosa. Quero ficar contigo, me mandou um monte de mensagem. Aconteceram muitas coisas: fiquei nervosa, me acalmei. Respirei, chorei um pouco, porque o que tinha acontecido anos atrás aconteceu de novo” - Jovem entrevistada descreve ter sido repetidamente exposta a conteúdo sexual através de chamadas, mensagens e vídeos quando tinha 16 anos.


“Na primeira vez eu me senti tipo presa àquilo, refém. Porque foi como se ele fizesse parte de mim, como se ele estivesse me dominando pelo fato dele ter me mostrado todo o corpo dele, como se a gente já tivesse essa intimidade, como se a gente já se conhecesse e a gente não se conhecia, não tinha essa intimidade. Então eu fiquei meio assustada, tipo “meu Deus, o que eu devo fazer com isso?”, como eu vou reagir a isso, sabe? Foi assim que eu fiquei” - Jovem descreve sentir-se angustiada e violada ao receber conteúdo sexual no Facebook quando tinha 12 anos.


“Em termos simples, é muito difícil dizer ou convencer alguém de que não é sua culpa, quando em algum momento você puxou certos gatilhos, sabe? E é muito difícil se anistiar de culpa frente a outras pessoas que tiveram bem mais culpa. E você pega essa culpa que você tem, essa sua parcela de ser um ator ativo e você faz elas serem algo que você carrega” - Jovem entrevistado relata ter se percebido como um ator central no abuso que sofreu e como essa culpa pesou sobre ele.


“Às vezes eles culpam a criança: “Mas porque eu não te falei para não falar com pessoas estranhas? Por que você aceitou?” E começa a culpar há uma inversão. E aí começa a culpar a criança e ao invés de buscar o real culpado. Então há essa desinformação que os próprios pais têm” – Profissional de justiça entrevistado.


Sobre o UNICEF

O UNICEF, Fundo das Nações Unidas para a Infância, trabalha para proteger os direitos de cada criança e adolescente, em todos os lugares, especialmente os mais vulneráveis, nos locais mais remotos. Em mais de 190 países e territórios, fazemos o que for preciso para ajudar crianças e adolescentes a sobreviver, prosperar e alcançar seu pleno potencial. Em 2025, o UNICEF comemorou 75 anos no Brasil.

O trabalho do UNICEF é financiado inteiramente por contribuições voluntárias.
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Informações para a Imprensa | UNICEF – Trama

João Vitor Zotini – jzotini@tramaweb.com.br – 11 99813-0151
Flávia Denone - fdenone@tramaweb.com.br – 11 93208-1211


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05.03.2026