Documento da Secretaria da Saúde indica grupos mais vulneráveis à doença, uma das principais causas de óbitos no mundo.
Para o também oncologista Leonardo Pontes, do Centro Regional Integrado de Oncologia (Crio), o estudo é um importante aliado de profissionais da saúde ao auxiliar na compreensão dos desafios atuais de combate e prevenção desse grupo de doenças, além de ajudar na busca por formas de acelerar diagnósticos e tratamentos.
Idosos e pessoas com baixa escolaridade morrem mais
A análise detalha que o câncer atinge principalmente idosos, sendo o envelhecimento um fator de risco para desenvolvimento de tumores. O elemento é refletido entre os óbitos no Estado, que se concentram em pacientes com idade a partir dos 60 anos, sendo mais letal entre os de 70 a 79 anos.
Segundo o profissional da Sesa, a maior incidência da taxa de mortalidade entre os mais velhos pode ser atribuída aos desafios e limitações enfrentados por um organismo mais vulnerável, além da presença de outras condições crônicas.
"Em geral, é mais complexo tratar a doença em idosos, pois eles têm mais comorbidade, ou seja, têm mais doenças associadas, então podem tolerar menos tratamentos agressivos em comparação a pacientes jovens, e muitas vezes recebem um diagnóstico mais tardio. E, por vezes, têm o corpo mais frágil.”
Diante dessas características, o especialista reforça a importância do diagnóstico precoce e de um acompanhamento contínuo, desde a atenção básica, para aumentar as chances desses idosos descobrirem a doença cedo e evitar complicações relacionadas ao tratamento.
Além do fator etário, o boletim expõe uma face social da doença: a maioria das vítimas no Ceará no período analisado possuía apenas o Ensino Fundamental I (32%) ou nenhuma escolaridade (25,3%). Para Leonardo Pontes, esses índices revelam que a falta de acesso à informação atua como uma barreira para o diagnóstico precoce.
Esse dado deixa bem explícito que o problema não é biológico, é social. A gente precisa aumentar o letramento da população sobre câncer. Dar a ela o conhecimento sobre o assunto, sobre como prevenir, como buscar os meios para se tratar, para que ela consiga chegar mais rápido ao serviço de saúde.”
Pacientes de cor parda e mulheres são as principais vítimas
Somada à questão educacional, a cor e o gênero também desenham o mapa da letalidade da doença em território cearense. Os dados da Sesa revelam que a proporção racial da população é espelhada — e levemente ampliada — no número de falecimentos: enquanto os pardos compõem 64,7% da população, conforme o Censo Demográfico 2022, eles respondem por quase 67% das perdas por câncer entre 2016 e 2025.
O levantamento indica que quase não há diferença entre mulheres (49,9%) e homens (49,8%) entre as vítimas de neoplasias malignas no Ceará. Porém, entre as vítimas precoces — dos 30 aos 69 anos — as mulheres são as que mais morrem. O índice é principalmente impulsionado pelos casos de câncer de mama, que foi a principal causa de óbito entre as cearenses na faixa etária.
A rápida progressão desse tipo de neoplasia poderia justificar a predominância feminina, de acordo com o oncologista do Crio. Geralmente, a doença atinge pacientes a partir dos 40 a 50 anos, período em que elas costumam estar em plena atividade, conciliando trabalho e cuidados familiares, o que pode atrasar ainda mais a procura por atendimento.
“Cânceres que acometem mulheres, como de mama e de colo do útero, são, via de regra, mais agressivos do que, por exemplo, o câncer de próstata, que atinge mais homens. Esses tumores femininos são bem mais agressivos. Então, se a mulher não for rápida no seu diagnóstico e chegar tardiamente ao serviço de oncologia, vai acabar morrendo mais rápido do que homens”, alerta o profissional.
Número de óbitos no Ceará cresceu quase 20% em oito anos
O cenário estadual observado pela análise identificou um aumento de 19,8% das mortes causadas por neoplasias malignas no intervalo de oito anos, saltando de 8.510 em 2016 para 10.624 em 2024. Leonardo Pontes atribui o crescimento a dois principais motivos: déficit assistencial e aumento de casos.
Vejo alguns fatores preocupantes, pois significa que a gente não está dando a assistência adequada para nossos pacientes. Muitos chegam às unidades de saúde em um estado avançado da doença. Aliado a isso, há ainda o aumento dos casos letais. A gente precisa melhorar a nossa rede de assistência para diminuir essa mortalidade ou, pelo menos, fazer com que esses casos cheguem mais cedo ao serviço de saúde.”
Essa deficiência na rede de cuidado coloca o Ceará, e o Brasil, na contramão global, já que, segundo o médico, a tendência de alta difere da observada em países mais desenvolvidos, nos quais a mortalidade tem se mantido estável ou apresentado queda em tipos específicos de câncer.
Para detalhar as razões desse cenário, o boletim aponta que a elevação da taxa de mortalidade é impulsionada pelo envelhecimento da população e pela maior exposição a fatores de risco, como tabagismo, álcool, obesidade e sedentarismo, como destaca Jader Sabino.

Tipos de câncer mais letais e locais com mais mortes
Além do aumento geral do número de óbitos no Estado, o boletim da Sesa detalha que cinco tipos da doença são os que mais geraram vítimas entre 2016 e parte de 2025. São eles:
- câncer de brônquios e dos pulmões;
- câncer de estômago;
- câncer de mama;
- câncer de próstata;
- câncer de pâncreas.
Tendência é que os casos da doença aumentem
Com mais de 100 tipos diferentes, o câncer é considerado uma das principais causas de adoecimento e mortalidade mundial. E a tendência é que o número de casos aumente nos próximos anos: até 2050, uma a cada cinco pessoas no mundo terá a condição, conforme estima a Organização Mundial da Saúde (OMS).
A projeção é semelhante à do Instituto Nacional de Câncer (Inca) para o triênio 2026-2028, quando são esperados 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil — excluindo o câncer de pele não melanoma.
No recorte local, a previsão do órgão é de que o Ceará registre 32.830 novos diagnósticos anualmente no período, alinhando-se ao avanço da enfermidade.
Diante desse cenário de aumento, cresce também a necessidade de prevenção da doença. Ainda conforme o Inca e organismos internacionais de saúde, estima-se que pelo menos 30% dos casos poderiam ser evitados mediante a adoção de estratégias efetivas de prevenção e promoção da saúde.
Ao Diário do Nordeste, Leonardo Pontes ressalta a importância de acompanhar a saúde por meio da atenção básica, e, abaixo, lista algumas medidas que podem reduzir o risco para desenvolvimento de neoplasias malignas:
diariodonordeste.verdesmares.com.br
caririativo.blogspot.com
13.04.2026


