Investigação revela mensagens entre a advogada Mariângela Fialek e o deputado Cezinha de Madureira citando interlocução com o ministro Kassio Nunes Marques em processos de gestores de Beberibe e Aquiraz.
Por Yuri Gomes
Investigações da Polícia Federal (PF) revelam a existência de articulação política em Brasília para influenciar decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) em benefício de prefeitos do Ceará. O esquema foi descoberto por meio de mensagens de texto e áudio apreendidos pela PF e envolvem as advogadas Valéria Rodrigues e Mariângela Fialek e o deputado federal Cezinha Madureira (PL-SP).
De acordo com a PF, eles atuavam em conjunto para "obter decisões favoráveis em processos judiciais em trâmite no STF". As advogadas captavam as causas judiciais e Cezinha faria a interlocução com os gabinetes dos ministros.
“O padrão de conduta é constante e se repete em todos os episódios: (i) Fialek encaminha ao parlamentar a peça, o memorial ou o andamento processual; (ii) o parlamentar confirma que 'falou', 'despachou', 'pediu' ou que será atendido pelo Ministro; (iii) a advogada cobra o resultado ('Manda notícias', 'Me de boas notícias!', 'Qual o próximo passo'); e (iv) paralelamente, formaliza-se o instrumento de honorários de êxito, em valores incompatíveis com a simples atuação técnica e vinculados exclusivamente ao resultado do julgamento”, destaca o relatório.
Entre os casos, são citados o prefeito de Aquiraz, Bruno Gonçalves (PSB) e a prefeita de Beberibe, Michele Queiroz (PP), ambos alvos de processos movidos pelo Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE).
No caso de Michele, o escritório ligado a Fialek firmou contrato de R$ 500 mil, com quitação a depender de uma decisão favorável do STF para suspender a investigação conduzida pelo MPCE.
"A remuneração pelos serviços ora contratados será devida pelo Contratante à Contratada no valor de R$ 500 mil pagos após o julgamento da RCL 79545, devendo sua quitação ser realizada em até dez dias contados da publicação [da] decisão", apontou o relatório da PF.
Mensagens interceptadas mostram Fialek questionando o parlamentar se ele havia conseguido despachar a demanda com o ministro Kassio Nunes Marques, relator da matéria no Supremo. Em outro momento, Mariângela Fialek conversa com Cezinha sobre outro caso, o do prefeito Bruno Gonçalves que estava sob relatoria do ministro Edson Fachin.
Em resposta, o relatório indica que o deputado teria solicitado audiência a Nunes Marques e sinalizado a realização de uma conversa por videochamada na mesma data para tratar da situação da gestora cearense.
“Eu havia pedido a ele para me atender hoje cedo, ele não ‘consegui’ me atender, marcou para falar comigo por vídeo às 16:00”, diz o trecho da conversa entre Mariângela e Cezinha.
As ações anuladas
Em maio de 2025, Michele Queiroz recorreu ao STF alegando usurpação de competência, sustentando que o MPCE promovia investigações veladas contra autoridades com prerrogativa de foro. O ministro Kassio Nunes Marques consultou a Procuradoria-Geral da República (PGR) que aconselhou negar o pedido por entender que não era a via processual adequada.
Nunes acatou a indicação da PGR, mas anulou a investigação contra Michele concedendo “ordem de ofício, para declarar a nulidade das diligências investigativas promovidas pelo Ministério Público do Estado do Ceará”.
O caso foi analisado pela Segunda Turma do Supremo em agosto de 2026. Os ministros mantiveram a decisão de Nunes Marques por unanimidade.
Desdobramento semelhante ocorreu em relação a apurações que miravam o prefeito de Aquiraz, Bruno Gonçalves, que também contestou juridicamente o MPCE. A investigação apurava um suposto aumento de despesas não autorizadas na cidade. Durante o processo, especificamente em junho de 2025, o prefeito passou a ser defendido por Fialek.
A relatoria do caso ficou com Fachin, que negou o pedido de Bruno. Após recurso da defesa, o caso passou a ser analisado pela Segunda Turma do STF, que reverteu a decisão de Fachin. O placar da votação ficou 3 a 2, com votos de Nunes Marques, Dias Toffoli e Gilmar Mendes a favor da anulação da investigação.
O caso se conecta com a apuração da PF, que revelou que em 18 de junho de 2025 Mariângela encaminhou a Cezinha três memoriais nominalmente endereçados a ministros do STF: Nunes Marques, André Mendonça e Gilmar Mendes, acrescentando a mensagem: “do que está fachin”.
A investigação apura os crimes de de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro de Cezinha Madureira e das duas advogadas.
O POVO tentou contato com as assessorias da Prefeitura de Aquiraz e Beberibe para esclarecimentos. A matéria será atualizada quando houver retorno.
opovo.com.br
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21.09.2026


