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Lula 4: Nordeste toma as rédeas do PT, muda rumo da campanha presidencial e projeta novos líderes

Lula 4: Nordeste toma as rédeas do PT, muda rumo da campanha presidencial e projeta novos líderes

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Após vitória, Lula discurou ao lado de Janones, Fonteles, Camilo e AlckminCrédito: Paulo Pinto/Agencia Brasil

Mudança no comando da campanha, com protagonismo de petistas nordestinos, amplia o peso político e abre espaço para novos nomes na articulação do governo.

Por Marcelo Bloc

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial do domingo, 25, fortaleceu líderes políticos do Ceará e de outros estados do Nordeste na estrutura que se prepara para o quarto mandato do presidente. Depois de terminar o 1° turno atrás de Flávio Bolsonaro (PL), a campanha de Lula se reorganizou, ampliando os espaços ocupados por políticos nordestinos e adotando uma estratégia mais combativa, com mais presença nas ruas e ampliação do engajamento nas redes sociais.

Nesse movimento, o senador Camilo Santana (PT-CE) foi um dos protagonistas. Ex-governador do Ceará por dois mandatos e ex-ministro da Educação de Lula, Santana assumiu a coordenação política da campanha a partir do 2° turno, articulou a reação dos petistas e ganhou visibilidade nacional.

O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), responsável pela comunicação, e o senador eleito pela Bahia Rui Costa (PT), que coordenou a agenda presidencial, também ampliaram as próprias influências dentro dos espaços petistas. A mudança de rota representa uma redistribuição de poder dentro da campanha e do próprio PT.

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, permaneceu na coordenação-geral, mas passou a dividir decisões com lideranças que, até então, estavam mais concentradas em disputas estaduais. A experiência eleitoral recente desses políticos e a capacidade de mobilização em territórios foram incorporadas à tentativa de reverter a vantagem inicial de Flávio.

O resultado final das eleições presidenciais de 2026 reforça o Nordeste não apenas como principal base eleitoral de Lula, mas como espaço de formação de quadros que podem influenciar os rumos do PT e decisões do governo no futuro.

Para a atual vice-governadora do Ceará e deputada estadual eleita, Jade Romero (PT), a eleição presidencial mostrou que há um caminho alternativo ao "modelo estabelecido" dentro de São Paulo, que comanda o partido em termos nacionais, mostrando a força do PT nordestino.


Camilo ganha força para o 4° mandato de Lula

Entre os cearenses, Camilo Santana é quem sai da eleição com a perspectiva mais imediata de ampliar a participação no governo federal.


A atuação na campanha presidencial se somou a uma sequência de vitórias eleitorais no Ceará: a eleição de Elmano de Freitas (PT) para o governo estadual em 2022, a vitória de Evandro Leitão (PT) na disputa pela Prefeitura de Fortaleza em 2024 e a reeleição de Elmano neste ano, em uma disputa contra Ciro Gomes (PSDB).


Na campanha presidencial, Camilo assumiu uma rotina intensa de entrevistas e coletivas, participando das articulações com aliados e estando à frente de temas que dominaram a reta final da eleição. O cearense foi um dos rostos da campanha de Lula.

Um dos principais temas foi a proposta de abertura dos sigilos bancário e fiscal dos candidatos, apresentada por Lula e transformada em frente de confronto contra Flávio Bolsonaro. O senador cearense cobrou publicamente os adversários e levou a discussão aos corredores do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Camilo também teve papel na reação petista no debate sobre segurança pública e redução da maioridade penal. Quando o PL tentou pautar a redução de 18 anos para 14 anos em casos de crimes hediondos, o senador defendeu uma redução para 16 anos, em movimento que buscava disputar o tema com os adversários.

A iniciativa não foi consensual entre setores da esquerda, mas evidenciou uma disposição de enfrentar assuntos nos quais o bolsonarismo vinha tentando concentrar o debate. A atuação ajudou a consolidar a imagem de Camilo como um articulador capaz de combinar mobilização política, comunicação e disposição para o confronto.

Lula chegou a chamar o senador cearense de “Rei da Virada”, em referência ao desempenho eleitoral do grupo político do cearense em disputas recentes.

Com a vitória presidencial, o senador passa a ser cotado para voltar ao primeiro escalão do governo. A Casa Civil, responsável pela articulação entre Planalto, ministérios e o Congresso, é uma das possibilidades ventiladas nos bastidores para Camilo.


Um eventual retorno ao Ministério da Educação também aparece como hipótese, considerando a experiência de Camilo à frente da pasta no terceiro mandato de Lula.


Não há, porém, definição sobre o futuro cargo do senador. A escolha dependerá da montagem do novo ministério e das prioridades políticas do presidente. Uma eventual ida para a Casa Civil ampliaria a influência cearense na coordenação do governo e na negociação com um Congresso em que a direita e a centro-direita mantêm presença expressiva.


Método cearense ganha dimensão nacional

A campanha de Lula no segundo turno também incorporou características de estratégias eleitorais usadas recentemente no Ceará. A mobilização de rua, a realização frequente de atos e a presença de lideranças em territórios populares já haviam sido componentes importantes das campanhas de Elmano e Evandro, ambas conduzidas com participação de Camilo.

No segundo turno presidencial, essa lógica ganhou escala nacional. A campanha ampliou a presença nas ruas, intensificou a comunicação com militantes e aliados locais e passou a dar maior atenção a eleitores que poderiam se abster. O objetivo era recuperar votos e reduzir a distância que separava Lula de Flávio depois da primeira votação.

A experiência cearense também se refletiu na atuação de Chagas Vieira (PDT), eleito suplente de Luizianne Lins (Rede) no Senado e aliado de Camilo.
Ex-secretário da Casa Civil do Ceará e responsável pela comunicação da campanha de Elmano, Chagas foi levado pelo senador para ajudar nas articulações pró-Lula em Brasília. A participação reforçou a presença de quadros cearenses na operação nacional.

A campanha, entretanto, não se limitou a reproduzir um modelo estadual. A reorganização envolveu líderes de diferentes regiões, mudanças no discurso e uma ofensiva digital que procurou enfrentar a influência bolsonarista nas redes. O papel digital teve participação importante do deputado André Janones (Rede-MG).

Rafael Fonteles em projeção

O governador reeleito Rafael Fonteles (PT) foi outro nome que ganhou espaço na campanha presidencial. Responsável pela comunicação no 2° turno, participou de reuniões estratégicas, auxiliou na preparação de Lula para os debates e incentivou o presidente a adotar formatos mais diretos de comunicação, como vídeos gravados com o próprio celular.

Fonteles também mobilizou prefeitos, vereadores e lideranças municipais no Piauí para ampliar a votação do petista e reduzir a abstenção. No segundo turno, Lula recebeu 75,88% dos votos válidos no Estado, o equivalente a 1.653.989 votos, contra 24,12% de Flávio Bolsonaro.

A atuação nacional, somada à reeleição no governo estadual, amplia a projeção política de Fonteles dentro do PT. O governador passa a integrar o grupo de líderes com capacidade de influenciar o futuro da sigla e a renovação de quadros. Ele também começa a aparecer em especulações sobre ocupar cargos na gestão federal e, inclusive, no debate sobre a sucessão de Lula em 2030.

Essa possibilidade, contudo, permanece no campo das projeções, visto que Fonteles tem um novo mandato para assumir em janeiro no Piauí. O dado concreto é que ele ampliou a participação em uma campanha presidencial e passou a integrar o círculo de políticos nordestinos que ganharam a confiança do presidente durante a disputa.

Rui Costa, José Guimarães e o peso regional

A presença nordestina na campanha não se restringiu a Camilo e Fonteles. Rui Costa, ex-governador da Bahia e ex-ministro da Casa Civil, assumiu a coordenação da agenda de Lula no 2° turno. A experiência administrativa e o conhecimento das articulações regionais ajudaram a organizar os compromissos do presidente na reta final da eleição.

No Ceará, outro nome importante para medir a influência política no quarto mandato é o deputado federal José Guimarães (PT-CE), ministro das Relações Institucionais. Diferentemente dos personagens que ganharam visibilidade durante a campanha, Guimarães já ocupava uma função institucional central na interlocução do Planalto com o Congresso.

A permanência do cearense no ministério ou uma eventual mudança de função será um dos indicadores do espaço que o Estado terá na nova estrutura governamental. A relação entre Camilo, Guimarães e Elmano também será relevante para a articulação de projetos federais e para a defesa de interesses do Ceará em Brasília.

Outro nome que sai fortalecido na relação com a cúpula petista é o de João Campos (PSB), ex-prefeito do Recife. Derrotado por Raquel Lyra (PSD) na disputa pelo Governo de Pernambuco no primeiro turno, o socialista foi convidado por Lula a integrar a articulação da campanha presidencial e se engajou na mobilização pela reeleição do petista.

A atuação de João Campos reforçou a aliança entre PT e PSB e manteve o ex-prefeito próximo ao núcleo político do presidente, apesar do revés na disputa estadual. A força eleitoral do Nordeste, por si só, não garante postos no primeiro escalão.

A composição do governo dependerá das negociações com aliados, das prioridades de Lula e da necessidade de construir uma base parlamentar capaz de sustentar a agenda do Planalto.

Comunicação digital entra no centro da estratégia

Paralelamente à ascensão de lideranças nordestinas na condução política da campanha, o segundo turno também foi marcado por uma mudança na comunicação digital do PT.

O deputado federal André Janones, de Minas Gerais, liderou a criação do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, que ultrapassou 10 milhões de seguidores na reta final da eleição. A iniciativa procurou organizar apoiadores, ampliar a circulação de conteúdos favoráveis ao presidente e disputar espaço com os canais bolsonaristas.

O movimento foi acompanhado por uma mudança no comportamento de Lula nas redes. O presidente passou a gravar mais vídeos no formato selfie e a adotar uma linguagem mais direta, em uma tentativa de reduzir a distância entre a comunicação institucional e a conversa cotidiana com os eleitores.


A estratégia combinou divulgação das realizações do governo, propostas para o futuro e confronto direto com a família Bolsonaro. Também procurou mobilizar eleitores jovens e pessoas que não haviam comparecido às urnas no primeiro turno. O esforço ocorreu em paralelo a uma retomada dos atos de rua e à participação de artistas, movimentos sociais e grupos de apoiadores.

No Ceará, eventos organizados pelo deputado estadual eleito Leo Suricate (Psol) reuniram públicos numerosos nas periferias de Fortaleza e deram visibilidade a uma mobilização que nem sempre passava pela agenda oficial das lideranças partidárias.

Janones, por sua vez, ganha espaço no debate sobre a comunicação do quarto mandato, embora ainda não exista definição sobre eventual função formal no governo.

A experiência do segundo turno pressiona o PT a repensar como comunica suas realizações e como mantém contato com o eleitorado fora dos períodos eleitorais. No discurso após a vitória, Lula garantiu que a comunicação digital terá muita importância no novo mandato.

Projeção

A vitória de Lula mantém um cenário politicamente favorável ao governo de Elmano de Freitas no Ceará e reforça a perspectiva de alinhamento entre os governos estadual e federal. A votação do presidente no Estado cresceu do primeiro para o segundo turno, assim como a mobilização de aliados e militantes.

O desafio agora será transformar o protagonismo eleitoral em influência permanente nas decisões de Brasília. Para Camilo, a vitória pode representar um novo posto no primeiro escalão. Para Fonteles, a consolidação de uma posição nacional dentro do PT. Para Guimarães, a manutenção de espaço na articulação institucional do governo.

Chagas Vieira e Leo Suricate, por sua vez, representam diferentes formas de mobilização política que ganharam visibilidade no Ceará durante a campanha. Janones simboliza outro desafio para o quarto mandato: incorporar à comunicação do governo a capacidade de mobilização digital demonstrada na disputa eleitoral.

A eleição também deixa uma questão para o PT: se a descentralização da campanha e o protagonismo de lideranças regionais serão incorporados à estrutura permanente do partido ou se ficarão restritos à reação emergencial que permitiu a virada.

O resultado de domingo encerra a disputa eleitoral, mas abre uma nova etapa de negociação por espaço no governo e no partido. O Ceará e líderes de outros estados nordestinos chegam a esse processo com maior visibilidade, acesso ao presidente e a expectativa de participar mais diretamente das decisões do governo Lula 4.


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27.10.2026