Mudança no comando da campanha, com protagonismo de petistas nordestinos, amplia o peso político e abre espaço para novos nomes na articulação do governo.
Por Marcelo Bloc
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial do domingo, 25, fortaleceu líderes políticos do Ceará e de outros estados do Nordeste na estrutura que se prepara para o quarto mandato do presidente. Depois de terminar o 1° turno atrás de Flávio Bolsonaro (PL), a campanha de Lula se reorganizou, ampliando os espaços ocupados por políticos nordestinos e adotando uma estratégia mais combativa, com mais presença nas ruas e ampliação do engajamento nas redes sociais.
Nesse movimento, o senador Camilo Santana (PT-CE) foi um dos protagonistas. Ex-governador do Ceará por dois mandatos e ex-ministro da Educação de Lula, Santana assumiu a coordenação política da campanha a partir do 2° turno, articulou a reação dos petistas e ganhou visibilidade nacional.
O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), responsável pela comunicação, e o senador eleito pela Bahia Rui Costa (PT), que coordenou a agenda presidencial, também ampliaram as próprias influências dentro dos espaços petistas. A mudança de rota representa uma redistribuição de poder dentro da campanha e do próprio PT.
O presidente nacional do PT, Edinho Silva, permaneceu na coordenação-geral, mas passou a dividir decisões com lideranças que, até então, estavam mais concentradas em disputas estaduais. A experiência eleitoral recente desses políticos e a capacidade de mobilização em territórios foram incorporadas à tentativa de reverter a vantagem inicial de Flávio.
O resultado final das eleições presidenciais de 2026 reforça o Nordeste não apenas como principal base eleitoral de Lula, mas como espaço de formação de quadros que podem influenciar os rumos do PT e decisões do governo no futuro.
Para a atual vice-governadora do Ceará e deputada estadual eleita, Jade Romero (PT), a eleição presidencial mostrou que há um caminho alternativo ao "modelo estabelecido" dentro de São Paulo, que comanda o partido em termos nacionais, mostrando a força do PT nordestino.
Camilo ganha força para o 4° mandato de Lula
Entre os cearenses, Camilo Santana é quem sai da eleição com a perspectiva mais imediata de ampliar a participação no governo federal.
A atuação na campanha presidencial se somou a uma sequência de vitórias eleitorais no Ceará: a eleição de Elmano de Freitas (PT) para o governo estadual em 2022, a vitória de Evandro Leitão (PT) na disputa pela Prefeitura de Fortaleza em 2024 e a reeleição de Elmano neste ano, em uma disputa contra Ciro Gomes (PSDB).
Na campanha presidencial, Camilo assumiu uma rotina intensa de entrevistas e coletivas, participando das articulações com aliados e estando à frente de temas que dominaram a reta final da eleição. O cearense foi um dos rostos da campanha de Lula.
Um dos principais temas foi a proposta de abertura dos sigilos bancário e fiscal dos candidatos, apresentada por Lula e transformada em frente de confronto contra Flávio Bolsonaro. O senador cearense cobrou publicamente os adversários e levou a discussão aos corredores do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Camilo também teve papel na reação petista no debate sobre segurança pública e redução da maioridade penal. Quando o PL tentou pautar a redução de 18 anos para 14 anos em casos de crimes hediondos, o senador defendeu uma redução para 16 anos, em movimento que buscava disputar o tema com os adversários.
A iniciativa não foi consensual entre setores da esquerda, mas evidenciou uma disposição de enfrentar assuntos nos quais o bolsonarismo vinha tentando concentrar o debate. A atuação ajudou a consolidar a imagem de Camilo como um articulador capaz de combinar mobilização política, comunicação e disposição para o confronto.
Lula chegou a chamar o senador cearense de “Rei da Virada”, em referência ao desempenho eleitoral do grupo político do cearense em disputas recentes.
Com a vitória presidencial, o senador passa a ser cotado para voltar ao primeiro escalão do governo. A Casa Civil, responsável pela articulação entre Planalto, ministérios e o Congresso, é uma das possibilidades ventiladas nos bastidores para Camilo.
Um eventual retorno ao Ministério da Educação também aparece como hipótese, considerando a experiência de Camilo à frente da pasta no terceiro mandato de Lula.
Não há, porém, definição sobre o futuro cargo do senador. A escolha dependerá da montagem do novo ministério e das prioridades políticas do presidente. Uma eventual ida para a Casa Civil ampliaria a influência cearense na coordenação do governo e na negociação com um Congresso em que a direita e a centro-direita mantêm presença expressiva.
Método cearense ganha dimensão nacional
Rafael Fonteles em projeção
Rui Costa, José Guimarães e o peso regional
Comunicação digital entra no centro da estratégia
Paralelamente à ascensão de lideranças nordestinas na condução política da campanha, o segundo turno também foi marcado por uma mudança na comunicação digital do PT.
O deputado federal André Janones, de Minas Gerais, liderou a criação do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, que ultrapassou 10 milhões de seguidores na reta final da eleição. A iniciativa procurou organizar apoiadores, ampliar a circulação de conteúdos favoráveis ao presidente e disputar espaço com os canais bolsonaristas.
O movimento foi acompanhado por uma mudança no comportamento de Lula nas redes. O presidente passou a gravar mais vídeos no formato selfie e a adotar uma linguagem mais direta, em uma tentativa de reduzir a distância entre a comunicação institucional e a conversa cotidiana com os eleitores.
A estratégia combinou divulgação das realizações do governo, propostas para o futuro e confronto direto com a família Bolsonaro. Também procurou mobilizar eleitores jovens e pessoas que não haviam comparecido às urnas no primeiro turno. O esforço ocorreu em paralelo a uma retomada dos atos de rua e à participação de artistas, movimentos sociais e grupos de apoiadores.
No Ceará, eventos organizados pelo deputado estadual eleito Leo Suricate (Psol) reuniram públicos numerosos nas periferias de Fortaleza e deram visibilidade a uma mobilização que nem sempre passava pela agenda oficial das lideranças partidárias.
Janones, por sua vez, ganha espaço no debate sobre a comunicação do quarto mandato, embora ainda não exista definição sobre eventual função formal no governo.
A experiência do segundo turno pressiona o PT a repensar como comunica suas realizações e como mantém contato com o eleitorado fora dos períodos eleitorais. No discurso após a vitória, Lula garantiu que a comunicação digital terá muita importância no novo mandato.
Projeção
A vitória de Lula mantém um cenário politicamente favorável ao governo de Elmano de Freitas no Ceará e reforça a perspectiva de alinhamento entre os governos estadual e federal. A votação do presidente no Estado cresceu do primeiro para o segundo turno, assim como a mobilização de aliados e militantes.
O desafio agora será transformar o protagonismo eleitoral em influência permanente nas decisões de Brasília. Para Camilo, a vitória pode representar um novo posto no primeiro escalão. Para Fonteles, a consolidação de uma posição nacional dentro do PT. Para Guimarães, a manutenção de espaço na articulação institucional do governo.
Chagas Vieira e Leo Suricate, por sua vez, representam diferentes formas de mobilização política que ganharam visibilidade no Ceará durante a campanha. Janones simboliza outro desafio para o quarto mandato: incorporar à comunicação do governo a capacidade de mobilização digital demonstrada na disputa eleitoral.
A eleição também deixa uma questão para o PT: se a descentralização da campanha e o protagonismo de lideranças regionais serão incorporados à estrutura permanente do partido ou se ficarão restritos à reação emergencial que permitiu a virada.
O resultado de domingo encerra a disputa eleitoral, mas abre uma nova etapa de negociação por espaço no governo e no partido. O Ceará e líderes de outros estados nordestinos chegam a esse processo com maior visibilidade, acesso ao presidente e a expectativa de participar mais diretamente das decisões do governo Lula 4.
opovo.com.br
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27.10.2026


