A desigualdade racial é resultado de uma construção histórica, afirma especialista (Foto: WILSON DIAS/ABR)
| IBGE | A região Nordeste, porém, possui realidades distintas entre os estados. Sergipe apresenta a menor desigualdade salarial do País entre as duas raças, com 15% de diferença entre os rendimentos.
Por LEONARDO MAIA / ESPECIAL PARA O POVO
O Ceará é o quinto estado do Brasil com maior desigualdade de rendimento salarial médio entre brancos e pretos, de acordo com dados de 2018 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A disparidade corresponde a quase o dobro entre os valores médios: R$ 2.111 e R$ 1.165, respectivamente.
Desigualdade salarial entre brancos e pretos
Os números correspondem à porcentagem de diferença entre os rendimentos médios das duas raças nas unidades federativas em 2018. Os dados foram obtidos por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
Distrito Federal
Amazonas
Piauí
Rio de Janeiro
Ceará
São Paulo
Pará
Minas Gerais
Roraima
Alagoas
Para Zelma Madeira, professora da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e titular da Coordenadoria de Políticas Públicas de Igualdade Racial do Estado do Ceará (Ceppir), esses números são resultado de uma construção histórica.
“Quando nós (os negros) saímos da escravidão, nós não saímos como classe trabalhadora e laboriosa, mas como classe perigosa. O imaginário popular de que nós não desempenhamos um bom trabalho é algo que contribui para o aumento dos índices de desemprego e desigualdade salarial”, ressalta.
Na região Nordeste, a desigualdade econômica enfrenta realidades distintas. Enquanto o Piauí tem registro próximo ao caso cearense, com diferença de quase o dobro, o Sergipe é o estado brasileiro com menor contraste entre salários de brancos e negros: R$ 311, número equivalente a 15%.
As realidades distintas no Nordeste
Os números correspondem à porcentagem de diferença entre os rendimentos médios das duas raças nas unidades federativas do Nordeste em 2018. Os dados foram obtidos por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
Piauí
Ceará
Alagoas
Paraíba
Rio Grande do Norte
Maranhão
Bahia
Pernambuco
Sergipe
Zelma pondera que saídas para o combate dessa desigualdade estão na promoção de políticas afirmativas, tanto no setor público como privado. Ela explica que é necessário estabelecer uma “discriminação positiva” para que os negros passem a ocupar espaços em universidades, concursos públicos e empresas privadas. “Isso não vai trazer nenhuma desqualificação ou prejuízo para as instituições e é fundamental para uma maior justiça social”, argumenta.
A Lei Federal nº 12.990/2014, por exemplo, é uma iniciativa nesse sentido. Diferente de cotas para vagas em universidades, que também levam em conta a classe econômica dos candidatos, essa lei reserva aos negros 20% das vagas oferecidas nos concursos públicos para provimento de cargos efetivos e empregos públicos no âmbito de instituições controladas pela União.
Desigualdade econômica ao longo dos anos no Ceará
Os números correspondem aos rendimentos médios (R$) das duas raças no Ceará, entre 2012 e 2018. Os dados foram obtidos por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
Preta
Branca
“No Ceará, nós convivemos com uma narrativa de que não há negros no Estado. Nós somos os ausentes, somos invisíveis. Temos que relembrar o passado para entender o presente e projetar o futuro. Podemos entender o que acontece agora somente se voltarmos atrás na história e vermos como os negros foram tratados na sociedade civil moderna”, observa Zelma.
Fonte: opovo.com.br
17.10.2019


