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Em meio ao avanço digital, cai distribuição de dinheiro em cédulas e moedas no Ceará

Em meio ao avanço digital, cai distribuição de dinheiro em cédulas e moedas no Ceará

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Com menor circulação de cédulas e moedas, vendedores relatam dificuldades para conseguir dar troco aos clientes que ainda pagam em dinheiro (Camila Lima/Diário do Nordeste)
Com o avanço de meios de pagamento que prometem mais facilidade e segurança, o uso do papel moeda nas transações financeiras parece estar cada vez mais perto da obsolescência. De acordo com o Banco Central, a distribuição de cédulas caiu de 232,8 milhões de papéis em 2018 para 226,5 milhões no Ceará, no ano passado (-2,5%). Em valores, os 226,5 milhões de cédulas equivalem a R$ 11,2 bilhões.
Paralelamente, a liberação de moedas passou por uma baixa ainda maior no último ano. A distribuição de 30,3 milhões de unidades representa uma redução de 25,7% em relação ao total distribuído em 2018 (40,8 milhões de unidades). Em valores, o dado de 2019 significa que R$ 10,9 milhões só em moedas foram distribuídos no Estado.
Na avaliação do economista Henrique Marinho, o advento do cartão de crédito e a facilidade que a ferramenta oferece fazem com que as pessoas optem por andar com cada vez menos dinheiro. “Por questão até de segurança para o consumidor e para o comerciante, e pela facilidade, as pessoas estão preferindo o cartão. O Banco Central vem se adaptando a uma demanda cada vez menor pelo dinheiro. Isso não gera um impacto negativo na economia”, afirma ele.
Com o avanço da tecnologia nas transações financeiras, a exemplo dos pagamentos contactless (por aproximação), o economista acredita que, de fato, o papel-moeda está com os dias contados. “Não tenha dúvidas de que isso vai acontecer. A tendência é que a impressão de papel-moeda diminua, e o Banco Central deve continuar se adaptando a essa nova demanda”, explica.
Dos 226,5 milhões de cédulas distribuídas pela autoridade monetária no Ceará em 2019, apenas 58,6 milhões foram emitidas naquele ano. O restante dos papéis corresponde às cédulas que já haviam sido emitidas anteriormente, retornaram ao BC e foram distribuídas novamente por ainda estarem em boas condições.
Apesar da redução, Henrique Marinho acredita que o volume de cédulas e moedas circulando na economia ainda é considerável. “A gente tem visto o surgimento de vários bancos digitais. Com as fintechs, fica mais fácil o uso de outros meios de pagamento que não são o dinheiro, então está ocorrendo cada vez mais a substituição na forma de pagamento”, ressalta.
Comércio de Fortaleza
Para quem atua no comércio do Centro de Fortaleza, por exemplo, a baixa na distribuição sobretudo de moedas é preocupante. A dificuldade em passar troco para o consumidor que prefere pagar em dinheiro é crescente ano após ano e as estratégias para driblar o problema são muitas: passam pelo apoio no comércio vizinho e até pela troca de cédulas por moedinhas na estação de trem do bairro.
Em uma loja de bijuterias próxima à Praça do Ferreira, a operadora de caixa Rosiane Santos revela que, em dezembro, a dificuldade na hora de passar o troco piorou, principalmente em relação às moedas. “Eu pego trem todos os dias e peço ao pessoal da estação trocar pra gente. É o jeito”, diz. Cerca de metade dos pagamentos realizados no local é à vista, enquanto outra metade é viabilizada pelo cartão de crédito ou débito.
No caixa de uma pastelaria também no Centro, um cartaz faz o apelo: “Facilite o troco”. Orienta ainda: “Pague com moedas”. No estabelecimento, o pagamento com cartão não é aceito. De acordo com o gerente, Leonardo Barbosa, o modelo sempre funcionou bem no negócio e está de acordo com o perfil da pastelaria.
Ele tenta se virar buscando trocar cédulas por moedas com os próprios fornecedores, mas já tentou outras estratégias. “Teve uma época que a gente oferecia o caldo de cana de graça para quem trouxesse uma certa quantia em moedas para trocar, mas acabou não funcionando muito bem, nem todo mundo trazia essa quantia ‘cheia’ e a gente acabou com a promoção”, lembra.
Em outro restaurante, o comerciante José Lemos faz a troca nos bancos da região para não deixar o cliente sem troco e também se queixa da dificuldade em dispor das moedas nas operações. Boa parte dos pagamentos efetuados já é no cartão, mas ainda há quem prefira o pagamento em dinheiro – e é nessa hora que o valor trocado nas instituições financeiras entra em ação.
Cartões
De fato, o uso dos cartões tem ganhado cada vez mais destaque nas transações financeiras realizadas no Brasil. De acordo com o último balanço da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), o valor transacionado em operações com cartão no País cresceu 17% no primeiro trimestre do ano passado na comparação com igual período de 2018.
Nas operações com cartão de crédito, o volume transacionado cresceu 17,8%, chegando a R$ 260 bilhões. Nas operações com cartão de débito, o valor chegou a R$ 152,5 bilhões (+15,1%). O avanço mais expressivo foi observado no uso do cartão pré-pago, com crescimento de 58,8% no volume transacionado, para R$ 3,5 bilhões no período.
O diretor-executivo da Abecs, Ricardo Vieira, acredita que existe, sim, um movimento cada vez maior de substituição dos meios de pagamento no Brasil e no mundo e uma procura por segurança e eficiência na hora de efetuar essas operações, como os cartões e transações digitais.
“Porém, ainda é cedo para falarmos em extinção do papel-moeda, dadas a realidade e a dimensão do nosso País. Os cartões, atualmente, representam cerca de 40% do consumo das famílias, e a nossa expectativa é que essa participação chegue a 60% até 2022”, detalha ele.
Esse movimento sofre influência do crescimento do e-commerce nos últimos anos e outras mudanças nos hábitos de consumo no Brasil e no mundo. “Com o tempo, os usuários tendem a trocar o uso do dinheiro, principalmente nos pagamentos do dia a dia, para as novas soluções. A futura modalidade de pagamentos instantâneos, que se desenhará ao longo deste ano, também contribuirá para essa evolução e para o aumento do uso dos meios digitais”, arremata Ricardo Vieira.
Fonte: Diário do Nordeste
miseria.com.br
13.02.2020