Foto: Oam Santos
Eleições municipais, principalmente as interioranas, tendem a ser decididas muito em razão de como os candidatos tratam os problemas locais e as dificuldades muito específicas de comunidades, bairros distritos e sítios. Geralmente os temas nacionais figuram como meros coadjuvantes nos discursos e, principalmente, na ordem prioritária da escolha de votos dos eleitores. Os motes de discurso e campanha, portanto, tendem a ser caseiros.
Essa realidade, porém, pode sofrer alterações no pleito eleitoral desse ano diante das peculiaridades que envolvem o ambiente social e político atual, seja em razão dos efeitos da pandemia ou das ondas de protestos na sociedade civil que tomam conta do mundo e do Brasil. O conhecido efeito da “imitação social” estudado na Sociologia sugere que tais efeitos e ondas devem fluir dos centros para os polos e exercer influência nas eleições locais, inclusive interioranas.
Então vamos lá:
A crise sanitária provocada pelo Covid-19 colocou a questão da saúde da população na ordem do dia. Dificilmente algum concorrente, principalmente o postulante ao cargo de prefeito, terá êxito se não tiver domínio do assunto, se não estiver preparado para comunicar de maneira clara, precisa e responsável com a população as questões relativas a prevenção e o tratamento da doença. A atuação dos municípios no controle da epidemia, sobretudo no que se refere a ameaça de uma segunda onda de contaminações, será decisivo e as próximas gestões precisarão ter clareza política e expertise técnica na elaboração de programas e políticas públicas de saúde para preservar o maior número de vidas possível. É conhecido um velho ensinamento de Maquiavel: “O povo conspira com quem lhe protege”.
Nesse mesmo sentido, o efeito pós-pandemia, que se instalará justamente no início das próximas administrações municipais, exigirá gestores públicos capazes do formar equipes experientes e eficientes na atuação das secretarias que cuidam da proteção social. O desemprego será uma realidade alarmante e demandará uma assistência social comprometida com os programas de auxílio e proteção dos setores mais vulneráveis da sociedade, pessoas que, para além da capacidade técnica, acreditem e defendam politicamente esses programas e políticas públicas assistenciais. Isso, aliás, não poderá ser feito sem uma ação articulada com as secretarias de educação, outro campo que exigira muito trabalho, adequação e gente qualificada para remodelar as atividades e garantir o acolhimento, o afeto e o aprendizado dos alunos e das suas famílias. Os candidatos que não entenderem as escolas como um elo entre a comunidade e a gestão e não tiverem no seu grupo de apoio pessoas e partidos comprometidos e qualificados para essa tarefa, terão dificuldade em convencer o eleitor em lhes confiar o voto.
Além disso, uma onda mundial e nacional contra o racismo, o preconceito e pela igualdade comporá o repertório dos debates locais, claramente porque a desassistência e a violência histórica perpetrada a setores específicos da sociedade, dos quais se destacam os negros, as mulheres e a comunidade LGBTI+ passaram a fazer parte do debate público de maneira muito consolidada, principalmente em razão da tomada de consciência de parte da sociedade e da mídia de que não é mais possível fazer de conta que essas coisas não existem ou que não agridem a democracia. Por isso, candidatos e programas de governo que não dialoguem com essas bases da sociedade tenderão a ter dificuldades de adesões nas suas campanhas. Mais uma vez, as políticas municipais de assistência e de educação, acrescentando-se aqui também as de cultura e juventude, serão decisivas na reconfiguração da sociedade na ressaca da pandemia.
Por fim, a democracia voltou a ser um tema de discussão nacional que poderá ter lugar nos debates das eleições locais, principalmente em municípios nos quais um dos grupos que disputam o poder local tenha ligação com setores ideológicos da política nacional que propõe ou apoiam manifestações ilegais com pautas antidemocráticas como fechamento do congresso e STF, intervenção militar, censura a imprensa e retorno do AI-5.
Saúde, emprego, escola, igualdade e defesa da democracia, portanto, tendem a ser motes nacionalizados com potencial decisório nas eleições que se aproximam. O pensamento político-ideológico que tem vínculo histórico com as teses da universalização do acesso a saúde, com a garantia do emprego e os direitos dos trabalhadores, com uma escola plural e inclusiva que dialoga com a comunidade, com o combate intransigente ao racismo e ao preconceito e com a defesa da democracia poderá sair na frente nas disputas municipais, desde que tenha a capacidade de, no diálogo com a sociedade, reafirmar suas bandeiras e apresentar-se como um grupo que tem programa e equipes comprometidas com essas causas e capazes de transformar ideias em ações que beneficiam a coletividade.
Os partidos, os candidatos e as alianças nos municípios deverão, ao lado do tradicional conhecimento dos problemas locais, representar essas ideias, sentimentos e desafios mais amplos, com ideias, legitimidade e representatividade social, sob pena de enfrentarem muita dificuldade na conquista da confiança do cidadão.
badalo.com.br
22.06.2020


