Em busca de evitar um cenário negativo, como o de aumento da evasão escolar, o Conselho Nacional de Ensino (CNE) recomendou que instituições educativas do Brasil inteiro evitem a reprovação dos estudantes durante esse período de crise sanitária. A orientação foi dada há cerca de seis meses, servindo para órgãos de ensino públicos e privados.
Deve partir de cada instituição, contudo, tomar a decisão de seguir o conselho do órgão- não sendo o ato obrigatório. Caso sigam, podem ainda optar pela aprovação automática dos estudantes, modelo que indica a conclusão positiva do ano letivo para todos.
Usar esse modelo como alternativa, porém, pode trazer à tona outra problemática. De acordo com Erlaine Cristina, 33, mãe das estudantes Queteli Maria, 14, e Maria Sophia, 6, o ensino por meio de atividades remotas tem sido “fraco” quando comparado ao presencial.
As filhas da cearense estudam em escola pública e seguem tendo aulas apenas virtualmente. “Elas já estavam bem capacitadas nas aulas presenciais e com essa queda no ensino eu percebi um interesse mínimo”, comenta Erlaine.
Neusa Silva, mãe de um aluno do 9° ano, afirma que o filho já tinha dificuldades em acompanhar o ano letivo de forma presencial e que agora, remotamente, ele tem mostrado cada vez menos empenho. A dona de casa ainda destaca que teme pela reprovação do adolescente, de 15 anos.
O baixo rendimento e as dificuldades apresentadas por alunos devido ao período de pandemia podem tornar coerente a recomendação de não reprová-los. Por outro lado, se todos passarem automaticamente de ano, podem subir um nível educacional sem aproveitamento de conteúdo.
Possíveis saídas
Segundo Ada Pimentel, presidente do Conselho Estadual de Educação do Ceará (CEE- CE), cada instituição de ensino deve reunir seus representantes para elaborar métodos avaliativos e pensar em propostas de auxílio aos estudantes. A docente informa ainda que o órgão também segue discutindo um protocolo pedagógico adequado ao momento.
Entre as propostas analisadas pelo Conselho, está a do currículo contínuo. O método consiste em fazer com que o aluno encerre o ano letivo mas recupere todo conteúdo que teve dificuldade em aprender no ano seguinte, o que Ada classifica como ação “mais aconselhável” a ser tomada.
“Uma das instituições que receberam o maior impacto foi a escola. Para não desvincular o aluno da escola se criou as atividades remotas. (…) A tarefa do professor é recuperar o aluno, como pode deixar ele no meio do caminho?”, questiona Ada.
Para evitar o processo de reprovação dos alunos, muitas instituições têm adotado ainda diretrizes que orientam a realização de avaliações mas “flexíveis”. Esse é o caso da Universidade Federal do Ceará (UFC), que elaborou um Plano Pedagógico de Emergência (PPE), aprovado em julho pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) da entidade estudantil.
De acordo com Ana Paula de Medeiros, pró-reitora de Graduação da instituição, o plano ainda indica modelos de avaliações a serem seguidos. Entre elas: “portfólios, fóruns, lista de exercícios e testes, simulados ou estudos de caso, debates entre os alunos, resenhas, auto avaliações, prova escrita e questionários, quiz on-line etc”.
No Cariri, o Conselho Acadêmio da Universidade Federal do Cariri (UFCA), optou pelo Período Letivo Especial (PLE), com aulas totalmente remotas desde o último dia 21 de setembro, com exceção do curso de Medicina. A inscrição no PLE para discentes foi optativa, e àqueles que venham a reprovar as disciplinas dentro deste período não terão registro acadêmico de reprovações no histórico acadêmico, podendo cursar a disciplina novamente sem nenhum registro anterior. Estudantes que não cursarem o PLE poderão reaproveitar as disciplinas do semestre 2020.1 em outro momento.
Anular ano letivo é uma opção?
Para Ana, a desigualdade no acesso ao ensino, que tem prejudicado alunos durante a crise sanitária- “existe mesmo de forma presencial e não apenas no modelo remoto”. A docente informou que a UFC optou, nesse sentido, por adotar medidas de inclusão social dos estudantes e não pela anulação do ano letivo.
“Fizemos o maior pacote de inclusão social de todos os tempos, incluindo chips, doação de equipamentos (…) Nós conseguimos suprir essa lacuna da dificuldade do acesso a internet e possibilitamos a formação dos professores, ofertando cursos formativos”, garantiu.


