Moradora de Sobral, no Norte do Ceará, Luana Maria lutou para viver após receber um diagnóstico tardio, com apenas 32 anos, em novembro do ano passado. À época, ela estava grávida de José e já notava um pequeno nódulo na mama direita, que triplicou de tamanho em dois meses.
“Eu confesso que não fazia o exame de toque, e o meu câncer já estava no nível quatro, o último. Foi uma surpresa porque achei que só acontecia com mulheres acima de 40 anos”, revela a auxiliar administrativa.
Depois de enfrentar 16 quimioterapias, 15 radioterapias e a remoção da mama, durante a pandemia da Covid-19, Luana venceu a doença e passou a conscientizar outras mulheres pelas redes sociais. “Sequelas ficam, mas consegui me sair tranquila. Sempre falo que a vida está nas mãos da gente”, reforça.
Médicos cearenses apontam que o isolamento social da pandemia do novo coronavírus também prejudicou o diagnóstico da doença. O Ministério da Saúde mostra que o número de mamografias no Ceará caiu 44% de janeiro a agosto de 2020, em comparação com o mesmo período de 2019.
Mamografias no CE (janeiro a agosto)
| 2018 | 51.155 |
| 2019 | 58.085 |
| 2020 | 32.351 |
O mastologista Fernando Melo, presidente da Regional Ceará da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), explica que, quanto mais tardia a percepção do tumor, menor é a chance de recuperação.
“A recomendação é que o exame seja feito a partir dos 50 anos. Mas, aqui no Brasil, percebemos um aumento nas pessoas mais jovens. Com isso, a Sociedade de Mastologia recomenda fazer o rastreio bem antes, a partir dos 40 anos de idade”, alerta.
Para o mastologista, também existe uma motivação cultural para a redução, mesmo com os esforços de rastreamento dos órgãos de saúde. “Existe uma ideia, principalmente no interior do estado, de demorar a procurar atendimento médico. Quando você adia o tratamento e é diagnosticada em fase avançada, o resultado é pior”, garante.
Conforme levantamento da SBM, a maioria das cearenses já chega aos consultórios no estado em estágio avançado da doença. Em 2009, por exemplo, 66% das cearenses eram diagnosticadas com tumores acima de dois centímetros. Já em 2018, esse percentual aumentou para 78%.
Luiz Porto, coordenador do Comitê Estadual de Controle do Câncer do Ceará, reitera que a letalidade está “associada ao estadiamento dos casos novos”, já que “a maioria das pacientes é diagnosticada com doenças avançadas (estágios III e IV)”. Ele diz também que a realização de mamografias foi o serviço mais impactado pela pandemia, embora consultas de suspeitas clínicas não tenham sido paralisadas.


