Apesar de o País nunca ter atingido pico de polarização tão alto quanto nos últimos anos, a existência de "apoios duplos" questionáveis entre gestões estaduais e federais não é exatamente nova no Ceará. Ao longo das últimas décadas, a situação ocorreu diversas vezes no Estado, com quase sempre alguém saindo perdendo da equação.
O caso mais recente remete ao senador Eunício Oliveira (MDB). A partir de 2017, quando iniciou reaproximação com o governo Camilo Santana (PT) no Ceará, o emedebista era um dos principais líderes de Michel Temer (MDB) no plano nacional.
Na época, petistas e lideranças do bloco dos irmãos Cid e Ciro Gomes (PDT) faziam oposição frontal a Temer, que havia assumido o Planalto poucos meses antes após o impeachment de Dilma Rousseff (PT) - até então chamado de "golpe" por pedetistas.
Mesmo assim, Eunício ensaiou "apoio duplo", mantendo postura de aliança tanto com Camilo quanto com Temer. No discurso oficial, o emedebista destacava sempre como a proximidade com o Planalto facilitava o aporte de recursos federais para o Ceará.
A questão nunca deixou de provocar mal estar na base, com Eunício protagonizando, em meio à relação amistosa com Camilo, diversas polêmicas e trocas de acusações com outros integrantes da base aliada. Foram vários, por exemplo, episódios de ataques movidos contra o emedebista pelo prefeito Roberto Cláudio (PDT), ou pelo próprio Ciro Gomes.
Eunício, por sua vez, deu diversas declarações negando interesse em voltar a ter relações com os Ferreira Gomes, destacando que a aproximação com Camilo vinha de sua histórica relação com os governos petistas - tendo ele ocupado o Ministério das Comunicações no governo Lula.
A parceria bem sucedida entre Camilo e Eunício na administração, no entanto, não se refletiu em ganhos eleitorais para o emedebista. Em 2018, Eunício acabou perdendo vaga no Senado para Eduardo Girão (Podemos), em disputa marcada por acusações de traições contra o emedebista dentro da base de Cid e Ciro Gomes no Estado.
Anos antes, a própria jornada que levou Cid Gomes ao Governo do Ceará, em 2006, também foi marcada por movimentação semelhante. Em 2002, quando Lúcio Alcântara (então PSDB) foi eleito governador do Ceará e Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente da República, os Ferreira Gomes permaneceram na base de ambos os governos.
O apoio duplo, ainda que bastante contraditório para o eleitorado da época, permaneceu até as vésperas da eleição de 2006, quando Cid Gomes se aproximou de partidos de esquerda e se lançou candidato a governador, vencendo o ex-aliado Lúcio ainda no 1º turno.
Na época, Tasso Jereissati chegou a tentar o confronto direto entre os dois, tentando articular uma candidatura de Alcântara para o Senado, que acabou não saindo do papel. Na época, a eleição também foi marcada por acusações de traições, uma vez que o PSDB possuía cerca de 70% das prefeituras do Estado. O próprio Tasso, por sua vez, teria "ignorado" a candidatura do tucano em prol de um apoio a Cid nos bastidores.
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30.06.2021


