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Nova "trend" entre adolescentes, inalar pó de corretivo pode trazer danos à saúde

Nova "trend" entre adolescentes, inalar pó de corretivo pode trazer danos à saúde

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Foram registrados no País casos de estudantes inalando pó de corretivo líquido para nova trend nas redes sociais(foto: Reprodução/Redes sociais)
Casos da prática entre adolescentes já foram notificados em escolas de São Paulo, Paraná e Santa Catarina.

Autor Marília Serpa

uma nova trend entre adolescentes tem viralizado nas redes sociais nos úlitmos meses: inalar pó de corretivo líquido como um tipo de simulação do uso de drogas. Alguns casos da prática já foram notificados em escolas de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, gerando preocupação a respeito dos malefícios à saúde dos adeptos.

"Pode acontecer um broncoespasmo, que é uma situação parecida com a da asma. Pode acontecer até mesmo uma reação anafilática, se a pessoa tiver alergia a algum dos componentes, e também pode ocorrer intoxicação pelo próprio produto, a depender da quantidade, podendo virar uma emergência respiratória", explica o otorrinolaringologista Hamilton Piancó, que atua na Capital.

De acordo com Janaina Lopes, doutora em química e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), existem mais de sete empresas que produzem corretivos no País, apresentando variações básicas em suas composições.

"Em geral, a composição, descrita principalmente nas embalagens e nas fichas técnicas de informações de segurança do produto, registram a presença de pigmentos, resina, aditivos e solventes. É bem verdade que estes componentes citados representam classes genéricas as quais, dentro de cada uma delas, existe uma imensidão de produtos de características químicas distintas", pontua Janaina.

O pigmento mais usado no corretivo é o dióxido de titânio (TiO2), responsável pela cor branca do produto. Segundo o médico Hamilton, a substância pode agredir o sistema nervoso central, o intestino e o fígado, levando o organismo a ter dificuldade de absorver vitaminas. "Pode ter também uma agressão a nível de pulmão, podendo causar hepatite medicamentosa, induzida por drogas, e insuficiência renal", explica o otorrino.

Em fevereiro de 2020, a União Europeia considerou o TiO2 como suspeito de ser cancerígeno da categoria dois por inalação, nos termos do Regulamento (CE) Nº 1272/2008 da União Europeia, em pesquisa realizada pelo Comitê de Avaliação de Risco (RAC) e Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA). Segundo Janaina, para solubilizar a substância e facilitar a secagem do produto, é comum encontrar o uso de água e álcool. 

"Há algumas formulações que usam isocianato de alila, com objetivo de melhorar a fixação e estabilização do TiO2 no veículo (resina). Segundo as informações de segurança para este produto, há um risco agudo de toxicidade ao ser inalado. A resina, usada com função de garantir uma consistência ao líquido, é geralmente constituída de hidrocarbonetos, derivados do petróleo", esclarece a química.

A Ficha de Informações de Segurança do corretivo líquido usado em papel, no entanto, classifica o produto como não perigoso, segundo a norma Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) NBR 14725-2, uma vez que o produto não é produzido com fins de inalação. Além dos danos mais sérios, a inalação do pó de corretivo também pode causar irritações nas mucosas do nariz, causando espirros, tosses e até sangramentos.

"Há de se considerar também que o corretivo, em sua forma líquida, tem pH entre oito e nove, indicando uma certa causticidade. Se a secagem não for efetiva, é possível que nas partículas do pó ainda existam reagentes químicos responsáveis por esse pH básico, podendo o mesmo prejudicar as mucosas", pontua Janaina. Ela explica também que o produto não possui efeito similar ao de drogas.

Como proceder em casos de reações?

A indicação do otorrinolaringologista Hamilton Piancó em casos de mal-estar após inalação de corretivo líquido é levar a pessoa para um local ventilado e pedir para que ela respire calmamente. "É indicado também levar em uma emergência hospitalar para verificar se está tudo bem e fazer nebulização. Em casos onde ocorre edema de glote, há risco de entubação ou traqueostomia", explica.

Como as reações diferem de organismo para organismo, a principal recomendação do especialista é que o paciente passe por avaliação médica a fim de receber o tratamento adequado. Em casos onde não é aparesentada nenhuma reação, o pó inalado, após ir para a corrente sanguínea, pode ser eliminado pela própria respiração, pela urina ou, ainda, ser metabolizado pelo fígado.

Conscientização sobre a prática

A química e professora da UFC, Janaina Lopes, acredita que um meio de evitar a prática entre adolescentes e jovens, principalmente no ambiente escolar, são ações conjutas entre os pais e a escola por meio de campanhas educativas. "É necessário falar sobre o assunto para desmistificar e diminuir a curiosidade dos adolescentes sobre drogas de modo geral", pontua.

A professora completa: "Lançar mão das redes sociais para disseminar boas informações, estimular a leitura saldável e combater fake news também constituem medidas relevantes no combate às drogas e a informações equivocadas". Nas escolas com casos notificados no País, foram feitos comunicados a fim de alertar os estudantes sobre a prática.

No Estado, segundo a Associação dos Professores de Estabelecimentos Oficiais  do Ceará (Apeoc) e o Sindicato de Escolas Particulares do Ceará, nenhum caso foi notificado até o momento. O POVO também entrou em contado com a Secretaria da Saúde (Sesa) e com a Secretaria da Educação do Ceará (Seduc), a fim de confirmar algum caso no Estado, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.

opovo.com.br

19.04.2022