Eduardo Ângelo cuida dos jardins das residências oficiais e transforma memórias da infância em esculturas que homenageiam personagens da cultura cearense
Escrito por Antonio Laudenir
Desde 1996, Eduardo Ângelo trabalha nos jardins que cercam as residências oficiais de governadores do Ceará. Do anterior Palácio Iracema ao atual Palácio da Abolição testemunhou as mudanças do poder. No cuidado diário com a natureza fez também florescer arte.
Em meio ao rojão cotidiano cria peças artesanais que se integram com a paisagem onde trabalha. A partir do reaproveitamento de materiais descartados, dentre eles, a simbólica e resistente carnaúba, homenageia personagens fincados na origem do povo cearense. São vaqueiros, rendeiras, agricultores, artistas populares... O que mais a imaginação o permitir.
Quem percorre a Avenida Barão de Studart, onde se situa a casa do governador, é chamado atenção pelas obras organizadas no canteiro central da via. Outro detalhe marca o olhar dos visitantes. No dia a dia, a farda vestida pelo artesão-jardineiro evoca a figura de Virgulino Ferreira da Silva (1898-1938), o eterno Lampião.
Em dezembro último, Eduardo Ângelo foi homenageado com exposição fotográfica. Enquanto um novo governador assume a residência oficial, o jardineiro revela como surgiu a faceta artesão, o traje de cangaceiro e o carinho pela função. "Faço o trabalho com amor, com vontade. Até por que é daqui que tiro o meu sustento, então tenho que me dedicar".
UMA FORTE CHUVA VEIO
Eduardo Ângelo resgata as origens em Pentecoste (89 km da Capital). Cresceu na roça, na lida diária como agricultor. É o caçula de cinco filhos e precisou deixar a terra natal em busca de outros horizontes. Chegou por Fortaleza em 1985. "Fugindo da seca", descreve o pai de família.
Nesse primeiro momento contato com a Capital, batalhou como servente de pedreiro e funcionário de lanchonete. O universo da jardinagem aconteceu três anos depois. Oportunidade surgida quando trabalhava na casa de uma família de classe média alta da cidade.

1996 foi o ano decisivo. É quando assume vaga de jardineiro terceirizado na sede administrativa do Banco do Estado do Ceará (BEC). Com a privatização do banco estatal, o local se tornou Palácio Iracema. Situado no Centro Administrativo Bárbara de Alencar, o espaço passou a funcionar como casa oficial.
A inspiração da primeira obra de artesanato aconteceu em 1998. A lembrança é muito viva. Após uma forte chuva, descreve, o galho de uma mangueira centenária caiu. Observando as pessoas carregando aquele material, teve a ideia de construir uma obra de arte.
Peguei o galho em forma de "y" e o coloquei em pé. Na minha imaginação veio como se fosse uma pessoa. Coloquei os outros galhos formando os braços e dei vida. Fiz um índio, foi meu primeiro personagem”EDUARDO ÂNGELOJardineiro e artesão
Um militar lotado no Palácio testemunhou o resultado, achou bonito e perguntou o que faltava para o jardineiro aprimorar o talento. Perguntou quais ferramentas precisava, afinal, para compor o primeiro trabalho, Eduardo usou facão velho, martelo e pregos reaproveitados de tábuas. “Foi um incentivo, né? Daí para cá fui fazendo estas peças e a imaginação fluindo”.
CASAS DO PODER
Sede do Governo do Ceará, o Palácio da Abolição foi inaugurado em 4 de julho de 1970, durante gestão de Plácido Castelo (1906-1979). Com novo equipamento, o Poder Executivo cearense deixou o Palácio da Luz (atual Academia Cearense de letras) e assumiu a edificação considerada obra de arte da arquitetura moderna.
Em 1987, o governo Tasso Jereissati transferiu a sede para o Centro Administrativo do Estado. Foi lá que Eduardo Ângelo começou sua jornada nos jardins do estado. Anos depois, durante a gestão Cid Gomes, o Palácio da Abolição passou por reforma e voltou, em 2011, a ser Residência Oficial e sede do Governo do Ceará.
Com a mudança, o filho de Pentecoste passou a trabalhar no jardim idealizado por Fernando Chacel (1931-2011). O projeto reúne espécimes da flora nativa e o riacho artificial que cerca a edificação. No local constam obras de artistas como Zenon Barreto (1918-2002).

Tem palmeira, cajueiro, cedro e jardim do Palácio conta com as carnaúbas, matéria-prima dos projetos idealizados pelo cearense. Ele aproveita o que cai das árvores e todo um material que iria para o lixo. Se somar quantas peças criou desde 1998, soma Eduardo, consegue ir para mais de três mil.
“As obras que vão entrando em decomposição, se deteriorando eu vou dando outra vida. Desmancho e nasce outra peça. Por conta da exposição ao sol e chuva é algo efêmero. Com o tempo vão se desgastando, perdendo aquele foco. O que posso, aproveito. O que não der mais jogo fora, uso outro galho para dar uma nova roupagem nelas”.
A carnaúba ganha protagonismo por ser muito resistente, conta o jardineiro. Em suas contas, uma peça protegida do relento pode durar até mais de 15 anos. “Vendi um presépio de natal para um coreano e deve estar por lá ainda”, estipula.
GALERIA A CÉU ABERTO
Assim, uma das vias mais movimentadas da Capital tonrou-se território e lar destas criações. Floresceram nos jardins da administração pública e ganharam o mundo. Toda uma criação que homenageia figuras icônicas como o agricultor, mulher rendeira, sanfoneiro, violeiro, operário, vaqueiro.
"São tudo da minha vivência na infância. O boiadeiro carregando lenha, correndo atrás de boi e cavalo. Tudo isso vivi no sertão, a coisa do sertanejo tirando leite da vaca... Vivenciei e ficou gravado em minha imaginação", detalha o artesão.
Devido a me trajar assim como Lampião e fazer minhas peças, então já sou conhecido em muitos cantos, até fora do país. Muito turista vem, bate foto minha e leva. Tem uns seis anos que chegou um alemão, eu nem entendia o que ele estava falando. Só sei que ele bateu muitas fotos e ficaram parecidas com estas que estão expostas aqui”.
Toda essa trajetória e dedicação renderam frutos. Eduardo Ângelo protagoniza a exposição “Jardineiro do Palácio”. A mostra é formada por fotografias do cearense Galba Sandras. "Entra governo, sai governo e ninguém disse não para ele. Isso por si só já é um fato interessante. Resolvemos fazer homenagem com uma exposição fotográfica que agora está nas paredes do Palácio. Creio ser o melhor lugar para se fazer isso. Pensamos em galeria, mas não atingiria o público", defende o fotógrafo Sandras.

A cerimônia de lançamento contou com a presença de autoridades, como a ex-governadora Izolda Cela. Ao todo, a exposição reúne 24 fotografias. "Depois de tanto tempo, fazendo o trabalho, altos e baixos... E de repente Dona Izolda, a governadora pega e reconhece meu trabalho. Foi uma maravilha. Naquele momento estava me sentindo uma estrela", divide Eduardo Ângelo.
CANGAÇO E JARDIM
“Meu pai contava muitas histórias de Lampião e aquilo ficou gravado em mim”, detalha. A partir dessa lembrança veio o desejo de homenagear o controverso capitão que fez história no Sertão. Com isso, a indumentária que homenageia o cangaço já se faz presente há oito anos.
Foi sendo construída gradualmente, com a paciência comum aos que entendem a ciência do bem cuidar das plantas. Primeiro item usado foi o chapéu. Chegaram a achar parecido com o Rei do Baião, Seu Luiz Gonzaga. Colocou as estrelas, tudo montando artesanalmente.
Fez o cinto de bala, punhal, bacamarte (claro, tudo cenográfico) e as botas. Foi criando, devagarzinho. Como já estava todo caracterizado, ninguém se deu por surpreso. “Para chegar até como estou caracterizado agora foi difícil. Primeiro coloquei o chapéu, até por medo de resistência, medo das pessoas não aceitarem, pois, trabalho no Palácio”, observa.
Com misto de responsabilidade e serenidade, Eduardo encarna o seu "Lampião Peão, o poeta da cidade do Sertão". “Vendo a história de Lampião na internet é como meu pai contava. Ele não era bandido, era justiceiro. Fazia justiça. Começou nessa vida quando viu matarem o pai dele. Para mim não era bandido”, argumenta Eduardo Ângelo.

Morador do bairro Papicu, a rotina do jardineiro começa rigorosamente cedo. Tem esposa, filha e uma neta. A pequena, afirma, é a maior fã dos vídeos publicados pelo avô nas redes sociais. "Assim toco a vida, trabalho e família".
O segredo para manter o jardim florido é amor, resume. "É cuidar do jardim, aguar, plantar, os meninos cuidam da limpeza. Fazer o trabalho com amor, com vontade. Até por que é daqui que tiro o meu sustento, então tenho que me dedicar".
“Para mim é uma alegria, todo tempo alegre, achando graça, me divertindo. Trabalhando com a natureza, tanto na área do jardim que é uma terapia para gente, como na área da arte. Quando me aposentar vai ser melhor, terei mais tempo, fazer com maior dedicação, acabamento melhor, investir em ferramenta e até ganhar dinheiro. Faltam dois anos para me aposentar”, projeta o jardineiro do Palácio.
diariodonordeste.verdesmares.com.br
06.01.2023


