Esporotricose também pode ser transmitida por animais infectados.
Os dados foram compartilhados pela Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) em uma formação na Escola de Saúde Pública (ESP). O objetivo é sensibilizar os profissionais a identificar possíveis casos e dar o melhor encaminhamento aos pacientes.
No geral, os registros começaram em pessoas a partir de 11 anos, sendo mais comum na população acima de 40 anos e tendo maioria (12) em idosos acima de 60 anos.
Até outubro, cinco cidades haviam confirmado casos de esporotricose humana:
- Fortaleza - 29
- Paracuru - 7
- Eusébio - 1
- Orós - 1
- Pacajus - 1
Para Carlos Garcia Filho, orientador da Célula de Vigilância e Prevenção de Doenças Transmissíveis e Não Transmissíveis (Cevep/Sesa), a predominância na capital é esperada pela maior facilidade de acesso a informações e a serviços de referência, como o Hospital São José (HSJ) e o Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC).
Apesar da carência de informações, o médico observa “uma tendência de crescimento, com possibilidade de termos uma quantidade importante de casos já no final desse primeiro ano”.
“Para o nosso Estado, o cenário é consistente. Tivemos casos notificados todos os meses e provavelmente há uma tendência de crescer essas notificações conforme for maior a divulgação para os profissionais”, explica.
O que é esporotricose?
A esporotricose é uma micose subcutânea causada por fungos do gênero Sporothrix, que são capazes de infectar humanos e animais.
A espécie Sporothrix schenckii tem distribuição global e é mais associada a traumas com vegetais contaminados, pois vive no solo e em matérias em decomposição. Por isso, inicialmente, era chamada de “doença do jardineiro”, pois acometia mais pessoas que lidavam com plantas espinhosas, como roseiras.
A doença foi descrita pela primeira vez no Brasil em 1955, em São Paulo, mas passou a se expandir de forma mais expressiva a partir da década de 1990, com surtos registrados no Rio de Janeiro.
Segundo Lisandra Damasceno, médica infectologista do HSJ e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), a responsável por esse fenômeno foi a espécie Sporothrix brasiliensis, descrita em 2007. Ela se adaptou facilmente ao organismo de animais, principalmente felinos, o que facilitou a transmissão aos seres humanos.
Nas últimas duas décadas, a doença migrou do Sul e do Sudeste para o Norte e Nordeste. O primeiro caso autóctone no Ceará ocorreu em 2022, marcando a chegada da enfermidade ao Estado.
Para Damasceno, o avanço da doença é um alerta. “A adaptação dela em gatos impactou no controle da doença. Até hoje, não se conseguiu controlar no Rio de Janeiro, e não queremos esse mesmo reflexo no nosso Estado”, destaca.
A notificação compulsória, implementada nacionalmente em março de 2025, é vista pela Sesa como uma ferramenta estratégica para mapear e conseguir maior precisão no acompanhamento dos casos.

Formas de transmissão
Atualmente, a esporotricose pode ser transmitida de duas formas principais: pelo contato direto com solo, vegetação em decomposição ou espinhos contaminados, e pela transmissão zoonótica, que ocorre ao se lidar com gatos infectados.
A espécie Sporothrix brasiliensis, mais virulenta que as demais, se adapta facilmente aos felinos, que adoecem de forma mais grave e carregam uma alta carga fúngica.
“O gato doméstico é o principal vetor. Ele transmite por arranhadura, mordedura ou até por gotículas respiratórias, o que exige cuidado no manuseio de animais doentes”, alerta Damasceno.
Os grupos de risco para casos suspeitos da doença incluem:
- tutores de felinos
- pessoas que tiveram contato com animais com lesões
- contato com animais que vivem em casas, mas têm circulação livre no ambiente
- médicos veterinários e estudantes
- acumuladores de felinos
- funcionários de pet shop
Apesar de ser mais comum em felinos, a infectologista afirma que o fungo também já foi encontrado em animais como roedores, tatus e equinos.
Carlos Garcia Filho, da Sesa, reforça que não há transmissão entre pessoas, mas que o fungo pode sobreviver algum tempo em superfícies e objetos contaminados.
Sintomas da infecção
No caso do fungo transmitido por animais, a infecção costuma se manifestar entre 7 e 12 dias após o contato, começando por uma ferida no local da inoculação - geralmente nas mãos, braços, pernas ou face, locais de maior exposição.
“Onde houve o trauma, forma-se um cancro que evolui para nódulo. Ele ulcera e, de dias a semanas, se dissemina para outras áreas linfáticas, formando um aspecto de rosário”, explica Lisandra.
A forma mais comum é a linfocutânea (pele e vasos linfáticos), responsável por até 90% dos casos, geralmente sem sintomas sistêmicos.
Em outras situações, podem ocorrer lesões em mucosas, como conjuntivite ou feridas na boca e no nariz.
Pessoas com imunidade comprometida (como pessoas vivendo com HIV/aids ou transplantados) correm maior risco de desenvolver formas graves e disseminadas da doença, que podem atingir articulações e ossos, pulmões e até o sistema nervoso central.
“A pessoa deve procurar o posto de saúde se perceber feridas que não cicatrizam, especialmente nódulos vermelhos que podem se espalhar pelo corpo, após arranhões de animais, contato com madeira ou arame contaminado”, orienta o médico Carlos Garcia.
Tratamento da esporotricose
O tratamento é ambulatorial, na maioria dos casos, e disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A primeira opção é o uso de um antifúngico oral. O medicamento pode ser solicitado diretamente pela unidade de atendimento ao Ministério da Saúde, por meio da nova plataforma Micosis.
O acompanhamento médico é importante, já que a resposta clínica pode variar conforme o estágio da infecção e o estado imunológico do paciente.
Na rede pública, o atendimento deve ser iniciado pelas unidades básicas de saúde (UBS). Casos suspeitos da doença devem ser encaminhados para serviços de referência em infectologia e dermatologia, conforme fluxo das Secretarias Municipais de Saúde.
Como se prevenir
Segundo o Ministério da Saúde, como atualmente não existem vacinas para infecções fúngicas de importância médica, as recomendações para prevenção da esporotricose incluem:
- usar luvas ao manusear terra, plantas ou animais com lesões
- manter quintais limpos e sem acúmulo de materiais que possam ser contaminados
- lavar bem as mãos após cuidar de animais domésticos
- manter cães e gatos em casa
- evitar o contato com animais doentes
Quanto mais precoce o diagnóstico, maior a chance de cura e menor o risco de complicações.
diariodonordeste.verdesmares.com.br
Cariri Ativo
13.11.2025


