A remuneração inclui gratificações recebidas por toda a categoria.
A pesquisa aborda os planos de carreira e remuneração do magistério nas redes estaduais brasileiras no ano passado, e analisa aspectos como a estruturação das jornadas de trabalho, as chances de crescimento e os desafios para a valorização prática da categoria.
O salário, então, é ponto central do estudo, que considera as remunerações iniciais e finais, com e sem gratificações. No Ceará, o salário-base inicial para jornada de 40 horas semanais é de R$ 4.961,73, pouco acima do piso nacional (R$ 4.867,77).
Porém, quando incluídas as gratificações recebidas pela categoria, o vencimento chega a R$ 6.839,11 – o 4º maior da região e 9º mais alto do País.
Na rede estadual cearense, esse valor é o mínimo que qualquer docente deve receber. Isso porque, no Estado, as gratificações são itens permanentes e obrigatórios do salário, recebidos por todos os profissionais, como explica a Secretaria Estadual da Educação (Seduc).
Assim, o valor apresentado na pesquisa como "remuneração inicial sem gratificações" do Ceará é, na verdade, apenas a base do que é pago aos docentes. Em nota, a Seduc informa que a remuneração inicial dos professores é formada por três componentes obrigatórios:
- Vencimento-base (R$ 4.961,73);
- Gratificação de Regência; e
- Parcela Variável de Redistribuição (PVR).
São itens “permanentes, incorporáveis e contam para a aposentadoria. Não se tratam de gratificações temporárias ou condicionadas”, acrescenta a Pasta.
Em 2025, o perfil salarial da rede estadual cearense, composta por 13 mil professores efetivos e ativos, segundo a Seduc, era assim:
- 12% dos professores são licenciados, com remuneração média de R$ 7.140,15;
- 58% são especialistas, com remuneração média de R$ 11.416,29;
- 30% são mestres ou doutores, com remuneração média de R$ 14.818,14.
O estudo cita ainda que o rendimento médio dos professores da rede estadual cearense equivale a 96% do valor que pessoas de outras profissões com ensino superior recebem. Essa equiparação de salários é a meta 17 do Plano Nacional de Educação (PNE).
Maria Cecília Gomes, diretora de Políticas Públicas do Movimento Profissão Docente e doutora em administração pública e governo, explica que o estudo diferencia a remuneração inicial da carreira e a soma com gratificações, mas aponta que “o Ceará tem gratificações extensíveis a todos os professores, então, na prática, todos recebem esse valor (com acréscimo)”.
Um dos desafios da rede local e de outros estados em relação à remuneração, por outro lado, é mudar o formato de pagamento de vencimento para subsídio. No primeiro, em resumo, as gratificações não entram no cálculo para aposentadoria; no segundo, são contabilizadas, conferindo mais segurança previdenciária aos docentes.
“Na educação, só seis redes adotam a remuneração por subsídio. Isso dá maior transparência, consolida o salário em parcela única”, explica a diretora. A Seduc, contudo, garante que as gratificações dos docentes cearenses integram, sim, o cálculo previdenciário.
No sistema educacional brasileiro, entre os valores adicionais que os professores podem receber estão aqueles por atividades que extrapolam as atribuições do cargo ou por compensação a condições excepcionais de trabalho. “Dar aula em lugar de alta vulnerabilidade e difícil acesso ou virar diretor de escola, por exemplo”, cita Cecília.
Outro ponto abordado pela pesquisa como destaque para o Ceará é a amplitude salarial: a possibilidade de crescimento remuneratório do docente é uma das melhores do Brasil. O aumento médio do salário de um professor da rede estadual pode chegar a 89% nos primeiros 15 anos de carreira.
“A carreira do magistério estadual é organizada em 20 níveis, com possibilidade de avanço anual, mediante critérios como avaliação de desempenho, resultados educacionais e formação continuada”, complementa a Seduc, ainda em nota. “No topo da carreira, o valor pode chegar a R$ 21.171,98”, diz a Pasta.
Formação continuada

De forma geral, o Ceará se sobressai positivamente na avaliação nacional, sobretudo no que se refere à carreira, como observa Cecília. “Não paga o maior salário, mas a carreira tem uma coerência com as outras políticas educacionais. Do Nordeste, o Ceará é o que está com carreira bem organizada”, situa.
Um dos indicadores que reforçam a análise é a organização da jornada do professor, conforme a pesquisadora. “A Lei do Piso estabelece que no mínimo um terço da jornada total do professor deve ser sem interação com os alunos. Essa hora-atividade é para formação continuada, planejamento individual e coletivo, e troca entre pares”, explica Cecília.
No Ceará, conforme o estudo, esse tempo é cumprido 100% na escola, para desenvolvimento profissional do professor. A pesquisadora contextualiza que “é uma das estratégias mais efetivas para melhorar a aprendizagem dos estudantes”, adotada em países como Japão, China, Canadá e Finlândia.
“As melhores práticas educacionais internacionais, onde estudantes aprendem muito, fazem isso. Os professores e gestores discutem entre pares os problemas da escola e dos alunos, trabalham juntos em soluções”, pondera.
Promover formação continuada e proporcionar progressão de carreira em si, porém, não é tudo. Cecília frisa que um dos desafios do Ceará é atrelar esse avanço do docente “à melhoria das práticas de ensino”. Ou seja: garantir que o progresso impacte em sala de aula e no resultado dos alunos.
“Hoje, a progressão é por titulação e tempo de serviço. Mas acumular vários títulos de especialização não necessariamente vai melhorar a prática do professor. Ele deve crescer na carreira em função da melhoria da prática profissional, com instrumentos de avaliação adequados”, sugere a pesquisadora.
Isso se faz, acrescenta ela, “com uma mensuração de desempenho que avalia a prática, mas ninguém no Brasil está fazendo isso”. Cecília cita que o Paraná, por exemplo, tem iniciado movimentos em torno disso, com filmagem e análise das aulas dos docentes, para que eles tenham suporte da rede se precisarem corrigir rotas.
Secretários contestam estudo
O Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) manifestou, por meio de nota nas redes sociais, "preocupação" com a divulgação dos dados de 2025 pela pesquisa, os considerando "desatualizados".
A entidade afirma que "parte das informações apresentadas não reflete atualizações normativas e reajustes implementados por diversas redes estaduais ao longo de 2025 e início de 2026", e reforça que "a valorização docente vai além da dimensão salarial".
O Consed publica ainda que "comparações descontextualizadas entre unidades federativas, sem considerar especificidades fiscais, jurídicas e administrativas não contribui par ao fortalecimento da educação pública".
Confira nota na íntegra:
O estudo do Movimento Profissão Docente informa, ao explicar a metodologia, que "enviou um formulário digital a todas as secretarias estaduais de educação para que os dados fossem validados por elas".
Das 27 secretarias, 20, incluindo o Ceará, "responderam ao formulário, confirmando as informações pesquisadas ou indicando eventuais inconsistências, que foram devidamente retificadas".
Os estados que validaram os dados foram: AC, AL, AM, AP, BA, CE, DF, ES, GO, MG, MS, MT, PA, PE, PI, PR, RN, RS, SE e TO.
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06.03.2026


