Grupo foi preso em janeiro pela mesma suposição e solto no início deste mês.
A "confusão" aconteceu porque parte deles utilizava tornozeleira eletrônica — medida cautelar aplicada pela Justiça após serem presos em janeiro pela mesma suposição e soltos no último 2 de abril. À época, Gustavo Iancovith, de 27 anos; Laura Eduarda Christo Flores, 26; Rubia Evanoviti Saviti, 18; e Sandra Batista Ferreira, 53, foram denunciados por moradores de Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza, pela hipotética tentativa de sequestrar crianças da comunidade.
Para Rogério Ribeiro, presidente da Rede Brasileira de Povos Ciganos (RBPC) e coordenador do Fórum das Comunidades e Povos Tradicionais do Ceará, ambos os casos escancaram o preconceito da população sobre os povos em itinerância, que são centenários no Brasil.
"Nós, ciganos, somos marginalizados e criminalizados. Eles estavam trabalhando, mas estão de tornozeleira [eletrônica], e o pessoal associou à situação de Maracanaú. São as mesmas pessoas [do primeiro caso], mas estão trabalhando, vendendo seus produtos de roupa de cama", ressaltou o representante.
Ele explicou ainda que o grupo envolvido na confusão é originário do sul do País, não do Ceará, e que isso deve ter confundido a população porque os nativos não têm a cultura de vender produtos de porta em porta.
"Eles chegam na porta [de uma casa], chega uma criança, e falam: 'Seu pai está aí? Sua mãe está aí?'. E oferecem roupas de cama, lençóis. Só que o pessoal, quando viu eles, chamou a Polícia dizendo que estavam sequestrando criança. Aí a Polícia foi lá e fez aquele carnaval todo", relembrou Ribeiro.
O presidente da RBPC, inclusive, aconselhou o grupo — que está no Ceará há cerca de nove meses — a informar sua estadia às autoridades de segurança de cada cidade que visitam para vender produtos. "Quando chegarem à cidade, têm que ir à delegacia", orientou.
Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, há pelo menos três etnias ciganas no Brasil: Calon, Rom e Sinti, cada uma com línguas, culturas e costumes próprios. Os Rom pertencem aos subgrupos Kalderash, Machwaia e Rudari, originários da Romênia; aos Horahané, da Turquia, e aos Lovara, da Grécia. Eles, depois, se juntaram aos Calon, que têm grande expressão no País, e são originários da Espanha e de Portugal. Já os Sinti vieram da Alemanha e da França.
"Eles chegam na porta [de uma casa], chega uma criança, e falam: 'Seu pai está aí? Sua mãe está aí?'. E oferecem roupas de cama, lençóis. Só que o pessoal, quando viu eles, chamou a Polícia dizendo que estavam sequestrando criança. Aí a Polícia foi lá e fez aquele carnaval todo", relembrou Ribeiro.
Tentativa de linchamento em Flecheiras
Sobre a tentativa de linchamento em Flecheiras, a RBPC divulgou nota de repúdio afirmando que a violência sofrida pela família "ultrapassa qualquer limite de civilidade". "Não se trata de episódio isolado, mas de um cenário de barbárie: agressões físicas, humilhações públicas, ameaças e um grupo de pessoas tentando impor uma suposta 'justiça' com as próprias mãos", escreveu a entidade.

Em nota enviada à reportagem, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) informou que uma composição da Polícia Militar recebeu uma denúncia sobre um "grupo que estaria em conduta suspeita" em Trairi, mas que, ao chegar ao local, os PMs "não constataram a situação relatada".
"Um dos integrantes do grupo, no entanto, foi lesionado por terceiros. A vítima foi socorrida e um procedimento foi lavrado na Delegacia de Polícia Civil de Trairi", acrescentou a pasta.
A vítima, no caso registrado, foi Gustavo Iancovith, que sofreu lesões nas mãos e na cabeça. Ninguém foi ainda identificado ou preso pelas agressões.
Nenhuma narrativa sustenta o direito de linchamento. O que se viu foi preconceito escancarado, intolerância e desrespeito à dignidade humana".
Julgamento ainda não tem data para acontecer
De acordo com a advogada Suzana Ferreira, que compõe a defesa da família, eles estão sendo acusados de tentativa de sequestro e de organização criminosa. "Na verdade, isso é um engano. Eles trabalham de porta a porta vendendo enxovais e estão sofrendo preconceito, discriminação, da população do Ceará", afirma a jurista.
Segundo ela, o processo corre em Maracanaú e o julgamento ainda não tem data para acontecer. "Eles estão muito mal, com medo a todo tempo. É bem complicada a situação deles", resumiu. Os ciganos também são assistidos pela Defensoria Pública do Estado (DPCE).
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30.04.2026


