Autor Ana Rute Ramires
Embora essa relação não tenha sido comprovada na morte de Ganley, o caso gerou repercussão justamente pelos efeitos adversos do uso. Há anos, o uso das substâncias para fins estéticos é proibido no Brasil.
Como anabolizantes e hormônios atuam no corpo
O médico endocrinologista Fabio Moura, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), destaca que o uso dessas substâncias para fins estéticos implica em altos riscos à saúde, como hipertrofia do coração, arritmias, trombose e episódios de hipoglicemia severa, que pode ser letal.
Ele explica que os anabolizantes são substâncias derivadas da testosterona, o principal hormônio masculino, classificadas como esteroides. Elas possuem ação miogênica, ou seja, atuam diretamente no tecido muscular, estimulando a síntese proteica e o anabolismo, o que resulta em hipertrofia muscular (aumento do músculo).
Também há a ação virilizante, pois são responsáveis pelo desenvolvimento de caracteres sexuais secundários, como alteração no timbre de voz e padrões de pelos. Além disso, ajudam para uma recuperação mais rápida, o que possibilita treinos mais frequentes e intensos.
O GH, hormônio do crescimento, possui ação lipolítica, ou seja, ele auxilia na queima de gordura e na definição muscular.
Nesse contexto, também utilizam a insulina, hormônio peptídico, derivado de proteínas, produzido pelo pâncreas, utilizado no tratamento de diabetes. Segundo Fábio Moura, no fisiculturismo, é utilizada para potencializar o anabolismo, "empurrando" proteínas e glicose para o músculo.
O médico relaciona que a insulina também é usada para contrabalançar o efeito do GH, que tende a aumentar os níveis de glicose no sangue.
A Resolução 2.333/2023 do Conselho Federal de Medicina (CFM) proíbe a prescrição de terapias hormonais com esteroides androgênicos e anabolizantes com a finalidade estética, ganho de massa muscular e melhora do desempenho esportivo.
O endocrinologista alerta que a prescrição médica para fins puramente estéticos é uma infração ética grave regulamentada pelo CFM. "É infração ética objetiva no limite do crime e sem margem para discussão", salienta.
Segundo o médico, não existe a possibilidade de fazer uso dessas substâncias de forma a prevenir ou minimizar efeitos colaterais. O acompanhamento médico permite apenas identificar danos de forma mais rápida, mas não os evita.
Cardiomiopatia hipertrófica: doença pode ser agravada com uso de anabolizantes
O atestado de óbito de Gabriel Ganley aponta para a morte por cardiomiopatia hipertrófica. Doença tem origem genética, mas pode ser potencializada pelo uso de anabolizantes e pelo excesso de atividade física.
Dados disponíveis na Diretriz Sobre Diagnóstico e Tratamento da Cardiomiopatia Hipertrófica – 2024 apontam que a doença atinge cerca de 20 milhões de pessoas no mundo todo, sendo a maioria homens (70%).
Doença é caracterizada pela hipertrofia (fortalecimento/enrijecimento) do músculo cardíaco. Apesar de grave, ela costuma ser silenciosa (90% dos casos são assintomáticos) e, quando há sintomas, eles são confundidos com outras patologias.
Antonio Carlos Avanza, presidente do Departamento de Ergometria, Exercício, Cardiologia Nuclear e Reabilitação Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), afirma que a doença é a principal causa de morte súbita em atletas ou em qualquer indivíduo antes dos 35 anos.
Para diagnosticar a doença, "o indivíduo tem que fazer ao menos uma anamnese, um exame físico, na consulta médica e um eletrocardiograma que pode ser detectada a expressão fenotípica da cardiopatia hipertrófica".
"O fato é que o uso do esteroide anabolizante pode piorar a hipertrofia do coração e agravar mais ainda a cardiomiopatia hipertrófica", relaciona.
opovo.com.br
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26.05.2026


