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4 em cada 10 brasileiros não conseguem citar uma mulher no poder, diz pesquisa

4 em cada 10 brasileiros não conseguem citar uma mulher no poder, diz pesquisa

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Legenda: 1 a cada 3 mulheres diz precisar mudar voz, gestos e roupas para serem ouvidas.
Foto: Roberto Hund\Pexels.

Pesquisa mostra áreas em que presença de mulheres ainda causa estranhamento, como Política e Tecnologia


Escrito por
Alexia Vieiraalexia.vieira@svm.com.br


Mesmo com avanços na representatividade e liderança feminina no Brasil, uma pesquisa mostrou que 40% dos brasileiros, entre homens e mulheres, não conseguem nomear uma mulher que exerça poder no País. Quando recortadas apenas as respostas das mulheres, a porcentagem é ainda maior: 45% não soube citar um exemplo.

A pesquisa "Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras" feita pelo Estúdio Clarice, grupo voltado para inteligência cultural, dados e narrativas sobre mulheres, entrevistou 2.036 brasileiros em todo o território nacional para entender o que pensam sobre poder. 

Além disso, foram feitas entrevistas qualitativas com 16 especialistas e 41 mulheres protagonistas em suas áreas de atuação para entender as experiências vividas por elas em posições de decisão.

Para a diretora da pesquisa, Gisele Sakamoto, a porcentagem alta de pessoas que não conseguem citar uma mulher no poder tem a ver com o imaginário popular que não relaciona essa característica ou espaço na sociedade ao feminino. 

Entre os nomes que chegaram a ser citados pelos participantes, dois são de mulheres que têm conexão com homens no poder: Primeira dama/Janja, a esposa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 10,1% das respostas, e Michelle Bolsonaro, esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro, com 4,8% das menções.

Outra mulher mencionada foi a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia. A ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral do Brasil teve 6,1% das menções.

Gisele explica que a noção de poder evidenciada na pesquisa está muito próxima ao campo da política. No entanto, para ela, é preciso expandir esse significado. 

“O poder não é simplesmente um cargo político, mas o que é possível e permitido fazer. O que uma mulher pode fazer, o que um homem pode fazer. Isso vem desde a infância, da forma como a gente aprende o que é poder”, diz Gisele. 

Nesse sentido, a pesquisa revela que os espaços considerados “naturais” para serem ocupados por mulheres são saúde (38%), educação (35%) e família (32%). 

Já a política (42%), finanças e negócios (33%), esporte (28%) e tecnologia e inovação (28%) são espaços em que a presença feminina ainda causa “estranhamento”. 

Poder causa ansiedade em mulheres e indiferença em homens

Ao perguntar o que as pessoas sentem ao pensar no poder, os homens responderam orgulho (24,1%), alegria (11,8%), desejo (7,3%) e indiferença (9,2%). O orgulho (26,5%), a alegria (10,7%) e o desejo (6,5%) também são mencionados pelas mulheres, mas são acompanhados de ansiedade (7,5%)

“As mulheres sentem ansiedade, os homens sentem indiferença. Porque o poder foi construído para os homens, pelos homens. Não foi construído para e pelas mulheres. A mulher precisa se fazer caber, se adaptar”, afirma Gisele. 

Isso é notável nas respostas das mulheres ouvidas na pesquisa: 1 em cada 3 afirma precisar mudar a voz, a roupa, os gestos ou esconder a personalidade para ser ouvida.

“Eu tenho que me comportar de um jeito, mudar para ser ouvida, respeitada e aceita em espaços de poder. Essa ansiedade vem com essa clareza e acúmulo do tempo e de situações que as mulheres vão sentindo. Esse retrato do poder, que causa ansiedade, mostra que o espaço de poder é natural pros homens e para as mulheres é essa conquista”
Gisele Sakamoto
diretora da pesquisa

“Tive que engolir muitos sapos”, diz executiva do mercado tributário

Thaís Borges, 46, executiva há mais de 20 anos no mercado tributário e tecnológico, foi uma das protagonistas ouvidas pela pesquisa. Ela conta que a necessidade de adaptação para ser aceita em um campo dominado por homens foi óbvia desde o início. 

A empresária relata que precisava “masculinizar” comportamentos, se esforçar muito mais do que seus colegas homens, sempre estar atenta à aparência e até ser acompanhada de homens em reuniões importantes para ser aceita nos ambientes corporativos. 

Em uma situação vivida em 2007, Thaís conta que atendeu um cliente por telefone com profissionalismo, respondendo dúvidas e se mostrando disponível para uma reunião presencial. Ouviu de volta um assédio descabido: “Está perfeito! Só falta você ser uma loira gostosa”, disse o cliente.

“Eu tive que engolir esse sapo, não ia deixar de fazer a venda. Foi horrível esse comentário dele, mas não foi o único que a gente teve que passar de assédio, de situações inclusive de ser inferiorizada”, conta.

Sem referências de mulheres negras como ela nos cargos de poder da área em que trabalha, Thaís diz ter aprendido a perceber a força em si mesma. “Já que eu sou a única, eu vou mostrar para que eu vim, porque eu estou aqui, então vou me destacar. Vou me desdobrar para me destacar”, afirma. 

diariodonordeste.verdesmares.com.br

caririativo.blogspot.com

16.06.2026