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Filha de montador de móveis e auxiliar de serviços gerais é aprovada em Medicina na Uece

Filha de montador de móveis e auxiliar de serviços gerais é aprovada em Medicina na Uece

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Legenda: Jovem concluiu o Ensino Médio na EEM César Cals em 2025 e conquistou a aprovação no vestibular de 2026.1.
Foto: Thiago Gadelha.

Jovem de 18 anos se torna a primeira da família a cursar o Ensino Superior.


Escrito por
Clarice Nascimentoclarice.nascimento@svm.com.br

Numa lista de quase 400 páginas, encontrar o nome de Ana Rafaely Pereira significa muito mais do que descobrir que ela foi aprovada em Medicina na Universidade Estadual do Ceará (Uece). É o novo capítulo da história de uma família oriunda de Santana do Acaraú, a 360 km de Fortaleza — a jovem de 18 anos se torna a primeira do núcleo a entrar numa faculdade. 

Egressa da Escola de Ensino Médio EEM Dr. César Cals, em Fortaleza, Rafaely sempre sonhou em cursar Medicina. Chegou a pensar no curso de Arquitetura e Urbanismo, por inspiração do pai, montador de móveis, mas já sabia: “não ia ficar satisfeita”. Por isso, focou nos estudos em busca de realizar o desejo e conseguiu. 

No resultado divulgado pela Uece nesta quarta-feira (14), Ana Rafaely alcançou o 2º lugar nas cotas raciais do curso de Medicina em Fortaleza.

“Eu sabia que era um curso muito difícil de conseguir passar direto do terceiro ano. Geralmente você faz mais dois anos de estudo depois. Mas aí continuei focada, continuei estudando bastante, com muito apoio da escola e deu certo”, conta em entrevista ao Diário do Nordeste

Caçula da família, Rafaely conta que chegou a Fortaleza quando tinha quatro anos. “Era um casal com quatro filhos numa cidade completamente nova”, relembra. A mãe, Maria Alda, trabalha como empregada doméstica e não concluiu o Ensino Médio, assim como o pai, João Paulo. 

Por isso, ela conta que os pais não tinham noção do universo do pré-vestibular. “Eles não sabiam como que fazia para entrar [na faculdade] e eu tive que ensinar isso. Independente disso, meus pais buscaram entender e me ajudaram sempre”, relata. 

Os irmãos mais velhos chegaram a terminar a última etapa da educação básica, mas não ingressaram no ensino superior. “Eu sou a primeira da família a entrar na faculdade pública e estadual”, conta com sorriso no rosto. 

Apoio do colégio

A rotina de estudos de Rafaely era dividida entre aulas no César Cals pela manhã e cursinho pré-vestibular pela tarde e noite. Ela frequentava um curso no bairro Aldeota com bolsa de 100% conquistada por meio da escola.

De casa para o colégio, o pai a levava. A outra parte do trajeto era feita, principalmente, de ônibus. 

Além disso, a escola ofertava ‘aulões’ aos sábados e simulados de vestibulares aos domingos. Apesar da rotina cansativa, o carinho e o cuidados dos pais a ajudavam a conseguir superar os obstáculos. 

“Eles sempre me apoiaram e me deram total liberdade nos estudos. Era a minha mãe que fazia minhas marmitas. Eu passava o dia fora, então não dava para ficar comprando almoço. Ela acordava bem cedinho, antes do trabalho dela, para fazer a comida. E meu pai me deixava no colégio, me buscava quando dava e ia me ajudando” 
Ana Rafaely Pereira
estudante aprovada em Medicina

Além do suporte da família, a escola teve um papel fundamental no percurso da Rafaely, para além do lado educacional. Moradora do bairro Pan Americano, ela se encantou de cara com o colégio durante a procura por onde iria cursar o Ensino Médio.

“Saí em busca de uma escola que pudesse me dar apoio, já pensando no Enem, nos vestibulares, e desde que conheci o César Cals fiquei com muita vontade de ser estudante daqui”, diz. 

Ana Rafaely sorri ao lado dos pais, celebrando a aprovação em Medicina na UECE. Ela exibe os braços pintados com o nome do curso e da universidade em tinta azul.
Legenda: Quando descobriu a aprovação em Medicina, Rafaely diz que estava sozinha em casa e imediatamente ligou para os pais e amigas para contar a novidade.
Foto: Arquivo Pessoal.

A escolha pela instituição foi mais que certeira: encontrou um lugar com um consolidado histórico de aprovações e um espaço de acolhimento liderado por Gerlylson Rubens, coordenador do 3º ano do EEM Dr. César Cals.

“No final do segundo ano, ele chamou os alunos com as melhores notas para conversar, falar sobre o cursinho. Ali, eu vi como uma oportunidade. Um sinal de que valia a pena tentar a Medicina”, afirma a jovem. 

O gestor conta que, no começo, a estudante demostrava o quanto a realidade parecia amedrontadora para ela. “A Rafaely ficava ponderando se conseguia mesmo. Partindo disso, passamos uma estratégia de acompanhamento, fomos em busca de uma bolsa de estudos, um curso extra para reforçar os conhecimentos e conseguimos”, detalha. 

Para ele, a história da jovem é singular, com uma conquista que significa uma transformação a longo prazo. “É uma menina negra, periférica, estudante da escola pública que conseguiu realizar o sonho dela por meio da educação. Daqui a uns anos, ela vai colher tudo isso através de pertencimento em lugares que antes eram distantes”, reitera. 

“Ela vai estar fazendo uma coisa que ela mais ama que é cuidar de outras pessoas. Imagina o cuidado que a Rafaela não vai ter com os pacientes dela, já que ela estudou tanto por amor e ela veio desse lugar de pessoas que precisam de cuidado”, afirma.

Inspiração para colegas 

Antes de receber a reportagem do Diário do Nordeste, Ana Rafaely participava de um ‘aulão’ para estudantes do 3º ano do César Cals na quadra do colégio, relatando sobre a experiência do pré-vestibular. 

Montagem mostra Ana Rafaely palestrando para estudantes uniformizados no César Cals. Imagens destacam a jovem falando ao microfone e a plateia atenta em um auditório escolar no Ceará.
Legenda: Ana Rafaely foi convidada, junto com outros ex-alunos, a participar de um evento na EEM César Cals para contar os caminhos que percorreram até a aprovação.
Foto: Thiago Gadelha.

“Sei que agora, na posição que estou, talvez vocês não levem isso muito a sério. Mas eu passei o ano todinho me autodepreciando, achando que não iria passar, que não tinha capacidade e inteligência, e que não estudava o suficiente […] Tem uma hora que você vai parar, mas vendo as outras pessoas estudando, seus professores apoiando e vai dar certo. Continuem mesmo cansados, mesmo com medo, porque no final, vocês vão passar”, dizia aos colegas.

Ela lembra também que, quando contava querer cursar Medicina, as pessoas ao seu redor a apoiavam e diziam palavras de incentivo. Apesar de agradecida, também ficava receosa, com medo de desapontá-las se não conquistasse o objetivo.

“Além do medo do vestibular, eu ficava com medo de decepcionar. Eu pensava: ‘se eu não passar, eu não vou decepcionar só a mim, mas aos outros também’”, recorda.

Gerlylson explica que os momentos de desmotivação são comuns no percurso do pré-vestibular. O grande diferencial, segundo ele, é ter uma rede de apoio que esteja ali para amparar os estudante. E quando esse suporte não vem da família, “tem que ser um mentor educacional para estar liderando ele”. 

“Isso faz toda a diferente. Quando eles passarem e olharem para trás, vão ver que não foi só Português, Matemática, Química, Biologia, mas também o apoio social e emocional”, comenta. 

Assim, o segredo, segundo a estudante, é persistir e “continuar mesmo que você ache que está dando errado”. “O mais importante é ficar perto de pessoas que estão acreditando em você, que, quando você quer desistir, elas não permitam isso”, diz Rafaely. 

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16.01.2026